O que Será do meu FaceBook Quando eu Morrer?

Meu amigo Jarbas Novelino chamou minha atenção, hoje cedo, através do Facebook, para um artigo que anuncia a criação, em Israel, de algo, não virtual, infelizmente, que parece um Facebook dos Mortos. Ele fotografa lápides e cria um site onde, um perfil para cada lápide, elas são exibidas e os parentes podem deixar suas memórias e curtições para o finado.

Acho desnecessário — e meio mórbido — fotografar lápides físicas para criar os perfis em um site. Deveria ser possível, mediante a apresentação da certidão de óbido, já criar o perfil do recém-falecido (ou do falecido há tempo), com fotos e demais memorabílias.

Certamente fica mais barato. Talvez, não tão bonito: veja a foto.

Cemetery in Israel

Cemetery in Israel

Um acordo com o Mark Zuckerberg poderia até permitir que o perfil e timeline do aposentado da vida fosse transferido para o site — que poderia se tornar, por assim dizer, e com perdão do trocadilho de mau gosto, um arquivo morto do Facebook. Este teria a vantangem de poder dar uma depurada no seu sistema, eliminando os que já passaram desta para aquela. Afinal de contas, os estatísticos já preveem que em 2065 o Facebook terá mais perfis de mortos do que de vivos, dadas as curvas atuais (curvas de novos membros e de falecentes).

Sempre acho essas coisas fascinantes.

Uma rápida busca em meu blog identificou três ocasiões: duas muito perto uma da outra, em Agosto de 2006, outra no fim de 2011.

“O que Será dos meus Hard Disks?” (de 21/8/2006)

http://liberalspace.net/2006/08/21/o-que-sera-dos-meus-hard-disks/

Literatura, Cinema… Alienação? (25/8/2006)

http://liberalspace.net/2006/08/25/literatura-cinema-alienacao/

Que Será de Nossos Pertences Digitais quando Morrermos? (17/11/2011, 28/12/2011)

http://liberalspace.net/2011/12/28/que-ser-de-nossos-pertences-digitais-quando-morrermos/

Quem estiver a fim de enfrentar uma discussão meio mórbida, vá em frente.

Acho que aos poucos estamos encontrando a chave para uma vida após a morte. Ela será uma vida “apenasmente” virtual, mas é melhor do que nada. Não vai exigir ressurreição, arrebatamento, nada. Uma mera transferência dos arquivos de um site para o outro.

Em São Paulo, 19 de Novembro de 2013

Now There is a Facebook for Dead People

By Christopher Mims @mims November 18, 2013

An Israeli entrepreneur has spent “hundreds of thousands of shekels” (tens of thousands of US dollars) to photograph and log 120,000 gravestones, in an effort to create a sort of Facebook/Wikipedia for the dead. It sounds ghoulish, but the project, Neshama, is intended to be the opposite: each page is to be a memorial to a particular deceased person, where family members can leave remembrances.

So far the site encompasses just five cemeteries, but the idea for the site seems eminently exportable. It’s unclear whether Shelly Furman Asa, the site’s founder, sought permission to take the photographs. But at least in the US, there is little to protect gravestones from being photographed, and similar sites like Find A Grave and BillionGraves already serve amateur genealogists in the US.

Facebook allows relatives to “memorialize” the profile of a deceased person, and cartoonists have calculated that Facebook could have more dead people than living by as early as 2065. Neshama’s differentiator is that Facebook has only existed since 2004, but people have been marking the site of their dead relatives for millennia.

Asa says digitization of more cemeteries is ongoing, and that eventually the site will make money by charging relatives to upload images and other tokens to their relatives’ pages.

http://qz.com/148560/now-theres-a-facebook-for-dead-people/

Meu Pai, o Rev. Oscar Chaves (1912-1991)

Meu pai, o Rev. Oscar Chaves (nome completo), nasceu no Triângulo Mineiro, em Patrocínio, Minas Gerais, cerca de 140 km a leste de Uberlândia, no dia 11 de Outubro de 1912, filho de Carlos Gonçalves Chaves, comerciante, e Alvina Jacintha de Oliveira Chaves, do lar. Teve cinco irmãos que sobreviveram até a idade adulta — quatro homens e uma mulher, a caçula: Carlos, Raul, [Oscar], Mauro, Aldo, e Dulce.

Fui privilegiado de conhecer a minha avó e todos os meus tios. Só não conheci meu avô, que faleceu quando meu pai era pequeno.

Dos tios, Carlos Chaves, “O Professor”, maçom livre, tradutor profissional (alguns volumes de Sherlock Holmes), escritor (Aprenda Sozinho Ortografia, etc.), foi o que me marcou mais fortemente. Simpático, mas calado e taciturno, normalmente dizia aos se despedir: “Beneficia-los-ei com minha ausência…” Até hoje digo isso ao me despedir dos de casa, que o conheceram. Por um tempo, tive uma assinatura que imitava a sua, inconfundível, até com os três pontinhos. Tinha muito orgulho de dizer aos meus professores do Ginásio que meu tio havia traduzido As Aventuras de Sherlock Holmes para a Melhoramentos [1].

Meu pai nasceu em lar católico e cresceu como católico sincero, indo à igreja todos os domingos, acompanhando todas as procissões, especialmente as da Semana Santa. Quando ainda bem jovem, fez parte da Conferência de São Vicente de Paula, que naquele tempo só tinha pessoas de idade. Mais tarde, mas ainda quando jovem, começou a estudar o espiritismo de Allan Kardec e se tornou um católico-espírita. Freqüentou muitas sessões espíritas com sua mãe. Depois foi convidado para os cultos protestantes (crentes), tendo aceito vários convites.

Começou a ler livros de polêmicas religiosas do pastor presbiteriano Rev. Álvaro Reis com espíritas (Cartas a um Doutor Espírita) e abandonou as idéias espíritas. Depois devorou livros de controvérsias com padres católicos, escritos por diversos autores presbiterianos.

O que mais o esclareceu e o entusiasmou foi Mimetismo Católico, discussão entre o Rev. Álvaro Reis e o Dr. Carlos de Laet, grande líder católico. Chegou a ler esse livro oito vezes! Mas ainda não era “crente” e tinha vergonha de entrar na Igreja Evangélica. Só no final de 1932 veio a se converter. Para que isso acontecesse, teve de ir para uma outra cidade, Patos de Minas, MG, onde ficou cinco meses lecionando num pequeno colégio [2].

Em Patos se firmou no Evangelho e, voltando para Patrocínio, em Dezembro de 1932, fez, no dia 1º de Janeiro de 1933, sua profissão de fé na Igreja Presbiteriana, com o Rev. Dr. Eduardo Lane (em homenagem ao qual eu recebi meu nome). Em Fevereiro, um mês depois de professar, já fez sua primeira pregação no púlpito daquela igreja, a convite do pastor. Nessa data, 1/2/1933, o texto de seu primeiro sermão foi o do Evangelho Segundo João, cap. 5, vers. 40: “E não quereis vir a mim para terdes vida.”

Naquele mesmo ano desejou ir estudar para o ministério em São Paulo. Seu pastor, Dr. Lane, viu, porém, que ele estava muito “verde” e o fez esperar um ano. Em Fevereiro de 1934 foi para o Curso Universitário “José Manuel da Conceição”, em Jandira, onde estudou cinco anos (quando foi para o JMC já tinha o 3º Ginasial). Lá se formou em 1938, indo então para o Seminário de Campinas, onde concluiu o curso teológico em 1941.

Foi licenciado pregador do Evangelho em 26 de Janeiro de 1942 (segunda-feira), pelo então Presbitério de São Paulo, na Congregação Presbiterial “Betânia”, em Pinheiros, sob o pastorado do Rev. Avelino Boamorte. Seu sermão de prova versou sobre João 18:36: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos para que eu não fosse entregue aos Judeus. Mas agora o meu reino não é daqui”.

Licenciado, foi enviado para a remota cidade de Paracatu, MG, para trabalhar com a West Brazil Mission (um dos ramos missionários que os presbiterianos americanos tinham no Brasil), sendo o primeiro obreiro evangélico a residir naquela antiga cidade mineira.

De Paracatu veio para Campinas, em Julho de 1942, para se casar, no dia 3 (dia do meu casamento religioso com a Paloma, setenta anos depois…), com minha mãe, Edith de Campos, com quem ficou casado até o fim de sua vida. Minha mãe foi com ele para Paracatu, depois das núpcias. Minha mãe havia nascido em 7 de Agosto de 1924 na Fazenda Boa Vista, nos arredores de Campinas (do lado de onde fica a Bosch, hoje, na saída para Hortolândia, antiga Jacuba). Ela era filha de José de Campos e Angelina Claro Godoy de Campos. Teve uma única irmã, Alice, que sobrerviveu até a idade adulta — a minha tia favorita, em muitos aspectos minha segunda mãe.

No fim de 1942 meu pai foi convidado para ser missionário da Junta de Missões Nacionais (JMN) e, aceitando o convite, foi ordenado para o ministério pelo Presbitério de São Paulo, no dia 31 de Janeiro de 1943 (domingo, à noite), no templo da Igreja Cristã Reformada da Lapa, em São Paulo. Com ele foram ordenados Wilson de Castro Ferreira e Domício Pereira de Matos. Estavam presentes no culto os Revs. William Kerr, Avelino Boamorte, Mario Cerqueira Leite, Amantino Vassão, Miguel Rizzo (orador), Paulo Pernassetti, Júlio C. Nogueira, Jorge César Mota e o pastor da Igreja Cristã Reformada. Oficiaram como ministros assistentes os Revs. Zaqueu de Melo (que era irmão de uma cunhada sua, minha tia, Da. Maria de Melo Chaves, mulher do tio Carlos, autora de um livro sobre o Protestantismo brasileiro, Bandeirantes da Fé, traduzido para o francês como Pionniers de la Foi) e Moisés Aguiar. Seu sermão de ordenação versou sobre Filipenses 1:21: “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho”. A primeira parte desse versículo é, em grego, o moto do Instituto JMC: “‘emoì gàr tò zên Christós“.

Ordenado o meu pai, ele e minha mãe foram enviados para Lucélia, na Alta Paulista, onde meu pai fundou o trabalho presbiteriano, que nasceu na sala de visitas da casa deles (e, pouco depois, minha também). Ficaram ali dois anos (eu, menos de um ano e meio) deixando um terreno comprado, um grande salão construído e uma Escola Dominical com 127 alunos. Foi ali em Lucélia que nasci, na Rua Amazonas, s/nº, no dia 7 de setembro de 1943. Meu pai plantou muitas igrejas na Alta Paulista. Recentemente descobri que foi o fundador do trabalho Presbiteriano em Dracena, SP, que recentemente celebrou 70 anos — nasceu no mesmo ano que eu.

De Lucélia meus pais foram enviados pela JMN para Irati, no sul de Paraná (entre Ponta Grossa e Guarapuava), onde ficaram um ano, pois o trabalho era realizado entre luteranos, o que não era um campo propício para a Junta. (Hoje meu amigo e ex-professor, João Wilson Faustini, mora em Irati. Passamos perto de lá recentemente, quando voltávamos de Foz do Iguaçu, PR.

De Irati foram enviados para o norte do Paraná, região para a qual afluíam, naquela época, famílias vindas de toda a parte do país, aventureiros, criminosos fugidos da polícia, etc. Em Marialva fomos residir em uma casa de madeira, inacabada, pois era tremenda a escassez de moradias, devido ao alto número de famílias que chegavam todos os dias. Em Marialva já havia uma pequena Escola Dominical num pequenino salão de madeira, que era visitada pelo Rev. Wilson Lício, então pastor em Arapongas. PR. Foi comprado um harmônio, um terreno e construído um grande templo de madeira. Em três anos havia uma Escola Dominical com 173 alunos e um imponente coral com quase trinta coristas, com todos os coristas de uniforme (herança do JMC) — algo que revolucionou aquela pequenina cidade que, naquela época, era uma cidade estilo “velho Oeste”, com cenas de “bang-bang” na rua. Ali recebeu mais de 60 novos membros, a maioria vinda do romanismo e do espiritismo. O Rev. José Carlos Nogueira, quando visitou aquele campo, disse que Marialva era a “Antioquia do Paraná”.

Mas, depois de três anos, formado o trabalho em Marialva, meus pais foram enviados para Maringá, PR, para abrir ali o trabalho presbiteriano, pois a cidade, oficialmente criada em 1947, devia se tornar, como de fato se tornou, a mais importante cidade do Paraná a oeste de Londrina. Eu, e agora, o meu irmão Flávio, nascido em 20 de dezembro de 1946 (em Campinas), naturalmente, fomos juntos. Meus pais alugaram uma casa com um salão comercial na frente e, no salão, começou uma Escola Dominical com 18 alunos. Não havia luz elétrica, água encanada, calçamento. Ali meu pai teve um campo que, quando de sua saída, no início de 1952, se desdobrou em quatro outros. De jardineira da Viação Garcia, ou, por vezes, a cavalo, visitava Marialva, Mandaguari, Jandaia do Sul, Pirapó, Taquarussu, Peaberu, Campo Mourão, Paranavaí, Capelinha e outros lugarejos.

Depois de três anos em Maringá, viemos para São Paulo, porque estava passando da hora de eu entrar na escola. No final de 1951, quando a decisão foi tomada, eu já tinha mais de oito anos, sem estar na escola (embora soubesse ler e escrever bastante bem, fruto especialmente do trabalho de minha mãe.

Ao sair de Maringá, meu pai deixou lá dois bons lotes de terreno comprados, onde depois foi construído o atual templo, e uma Escola Dominical com 137 alunos.

A convite do Presbitério de São Paulo, ele assumiu, a partir de Março de 1952, o pastorado da Igreja Presbiteriana de Santo André — igreja recém organizada (o fora em 1951), com poucos recursos humanos e financeiros. A Escola Dominical, quando tinha 60 pessoas, estava animadíssima. O pequeno salão de cultos, construído na Rua 11 de Junho, 878, onde está hoje o Edifício de Educação Religiosa, poucas vezes se enchia. O campo era formado pela igreja de Santo André e as congregações de São Bernardo do Campo e do Parque das Nações, este, um bairro de Santo André.

Em 1982 (quando foram preparadas as notas biográficas que estou utilizando aqui, para comemorar os 40 anos de sua ordenação ao ministério), a Igreja Presbiteriana de Santo André tinha 600 membros adultos, uma Escola Dominical com 580 alunos, e um Conjunto Coral de 90 vozes. A Igreja de Santo André tinha, em 1982, cinco filhas já emancipadas e organizadas: as Igrejas Presbiterianas de São Bernardo do Campo, Parque das Nações, Utinga (também bairro de Santo André), Mauá e Ribeirão Pires, além de congregações em Jardim das Monções, Cidade São Jorge, e Vila Suiça, todas em Santo André. A Igreja de Santo André já tinha (também em 1982) uma “neta”, a Igreja Presbiteriana de Santo Alberto, criada pela Igreja do Parque das Nações.

Meu pai foi reeleito diversas vezes pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André. Em outubro de 1976, depois de pastorear a igreja por 24 anos, foi reeleito, pela sétima e última vez, com 99,1% dos votos da assembléia, prova da estima que a igreja lhe tinha [3].

Em 1982 meu pai completou 70 anos de idade e foi jubilado (aposentado), por força das normas trabalhistas da Igreja Presbiteriana do Brasil. Permaneceu, entretanto, ajudando na Igreja, que passou a ser pastoreada pelo até então pastor auxiliar, Rev. Evandro Luiz da Silva, que havia sido meu colega no Instituto José Manuel da Conceição e no Seminário Presbiteriano de Campinas.

Em um desses lamentáveis acontecimentos a que nem as pessoas mais bem intencionadas estão imunes, meu pai e o Rev. Evandro Luiz da Silva se desentenderam a tal ponto que, em 1986, meu pai e um grupo de membros da Igreja Presbiteriana de Santo André deixaram a igreja e formaram uma congregação que eventualmente se tornou a Segunda Igreja Presbiteriana de Santo André, hoje chamada Igreja Presbiteriana Maranatha de Santo André. Ali os membros que o acompanharam o declararam Pastor Emérito – corrigindo o que só pode ser qualificado de uma indelicadeza cometida pela Igreja que ele pastoreou durante mais de 30 anos, que não havia tomado a iniciativa de assim honrá-lo.

A Igreja Presbiteriana Maranatha tem, há bastante tempo, prédio próprio onde funcionam o templo e as instalações de Educação Religiosa.

Meu pai faleceu em 5 de março de 1991, no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, vitimado por câncer na próstata. Morreu um ano e pouco antes de poder comemorar o seu octagésimo aniversário, o Jubileu de Ouro de sua ordenação e as suas Bodas de Ouro com minha mãe. Foi velado no salão social de sua igreja [4].

Meu pai foi Presidente dos Presbitérios Paulistano e da Borda do Campo, tendo sido também Tesoureiro deste e do Sínodo que o congregava (Sínodo Santos-Borda do Campo). Foi Presidente da Junta de Missões Nacionais da Igreja Presbiteriana do Brasil e membro da Comissão de Evangelização da Igreja Presbiteriana do Brasil. Visitou uma vez os Estados Unidos, a convite do Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (presidido pelo arqui-conservador Rev. Carl MacIntyre), para assistir, como observador, a uma de suas grandes reuniões, em Atlantic City, New Jersey.

Ele foi convidado para ocupar vários cargos na administração da Igreja Presbiteriana do Brasil, e mesmo para ser professor de sua alma mater, o Seminário Presbiteriano de Campinas. Entretanto, sempre declinou dos convites, preferindo o trabalho na igreja local. Fez diversos trabalhos de evangelização pelo rádio, em duas emissoras de Santo André. Pregou em mais de cem cidades de treze Estados brasileiros.

Além de dedicado pastor e excelente homem de púlpito, meu pai era poeta e músico. Escreveu várias poesias e inúmeras letras de hino, tendo também composto a melodia de alguns. Tocava vários instrumentos, todos eles de ouvido: órgão (inclusive elétrico), piano, acordeon, flauta transversal, flauta doce, gaita, violão, cavaquinho, bandolim, e até mesmo serrote. Era bom pintor de telas em aquarela e guache – embora quase todas elas, e suas gravuras a lápis, exibissem o mesmo tema bucólico e campestre, pleno de por-de-sóis, montanhas, araucárias, palmeiras, e lagos com pequenos barcos a vela.

Mas o que gostava mesmo de fazer era escrever folhetos e artigos criticando os “erros” das outras igrejas. A Católica era seu alvo favorito. Mas as pentecostais também levavam muito chumbo. Era um crítico mestre das outras igrejas.

Meu relacionamento com ele não foi sempre fácil, em especial depois de eu haver decidido ir para o Seminário para me preparar para o ministério. Creio que essa minha decisão (tomada em 1960) elevou suas esperanças a meu respeito, levando-o a imaginar que eu um dia pudesse dar continuidade à sua obra. Quando ele percebeu que, teologicamente e no que diz respeito a política eclesiástica, nós caminhávamos em direções opostas, seu desapontamento foi grande – e o conflito inevitável. Mas esse assunto não cabe aqui neste artigo. Basta dizer que, na minha modesta opinião, mantida até hoje, meu pai, apesar de ser um excelente crítico das outras igrejas, foi bem menos crítico do que devia de sua própria. Foi isso que nos separou teológica e eclesiasticamente. (Vide mais, abaixo: “Ideias”).

A seguir vou apresentar algumas vinhetas da vida do meu pai – pequenos e não tão pequenos episódios que considero importantes ou interessantes.

O Noivado com Loyde Bonfim

Meu pai, quando estudante em Campinas (1939-1941), foi, o tempo quase todo, noivo de Loyde Bonfim, da Missão dos Índios Caiuá, que acabou se casando com um colega de meu pai, o Rev. Orlando Andrade. Nunca tive muitos detalhes do caso, até porque o assunto não era dos que minha mãe mais gostasse de ver discutidos em sua presença. Soube, porém, que o rompimento foi meio inesperado e, portanto, traumático, e que o noivado e casamento com minha mãe, logo depois, não foi muito bem visto nos círculos eclesiais. Pelo que soube, o Rev. Miguel Rizzo teria até mesmo se oposto à ordenação de meu pai em função do ocorrido. (O leitor verá que tive, portanto, por quem puxar, quando, futuramente, terminei alguns namoros e dois casamentos de forma meio abrupta e, para a outra parte, inesperada).

Anos depois, quando eu já era jovem e estudava no Seminário de Campinas, fiquei conhecendo Loyde Bonfim Andrade. Lembro-me de ter ficado surpreso quando ela me perguntou, de sopetão, se eu sabia que por pouco ela não havia sido minha mãe…

Seu aluno, Aharon Sapsezian

Aharon Sapsezian foi meu grande amigo dos meus 45 anos em diante – ou seja, nos últimos quase 25 anos, até sua morte, no ano passado.

Conheci-o pessoalmente em 1967, quando precisava de uma passagem aérea para os Estados Unidos (ida e volta), para poder usufruir uma bolsa de estudos de três anos que me concedera o Pittsburgh Theological Seminary. O Aharon – Rev. Aharon, para mim, naquela época – era, na ocasião, Secretário Executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos. Mesmo sem me conhecer, apenas ouvindo minha história (havia sido expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, com mais de 7o colegas), arrumou, junto ao National Council of the Churches of Christ in the United States of America, a desejada bolsa.

Não o vi mais, nem ouvi falar dele, daquele momento até 1988, vinte e um anos depois, quando já era Professor Titular da UNICAMP, emprestado para dirigir o Centro de Informações de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde. Nessa qualidade, tive de ir até Genebra, para uma série de reuniões relacionadas a sistemas de informação de saúde, em especial os sistemas de notificação de moléstias contagiosas de notificação compulsória, a ser realizada na Organisation Mondiale de la Santé (OMS – ou World Health Organisation — WHO), que tem sede lá.

Nunca havia ido a Genebra, cidade que sempre figurou no meu imaginário por seu papel na tradição reformada (calvinista). Sabedor que meu amigo e colega na UNICAMP, Rubem Alves, ia com certa frequência lá, por suas ligações com o Centre Oecumenique (CO), sede do World Council of Churces (WCC). Perguntei a ele se conhecia alguém lá e ele indicou o Aharon – que trabalhava exatamente no WCC. Disse que só tinha visto o Aharon uma vez na vida, e ele me assegurou que eu seria muito bem vindo.

Em Genebra, liguei para o Aharon por volta das 10h da manhã do meu primeiro dia de trabalho, e ele me convidou para almoçar no apartamento dele já naquele dia. Ficamos melhores amigos à primeira vista. Voltei lá inúmeras vezes e via o Aharon quase todos os dias, todas as vezes.

Numa de nossas conversas, em 1988, ele espiculou sobre minha família, e falei de meu pai, que era de Patrocínio… Ele ficou sério de repente, matutando… E me disse: acho que seu pai foi meu professor de Caligrafia no Instituto Bíblico de Patrocínio, em 1933 (dez anos antes de eu, Eduardo Chaves, nascer). O pai do Aharon era um refugiado armênio, reformado (presbiteriano), mascate pelo interior de Minas, que fixou residência em Patrocínio para que os filhos pudessem frequentar a escola presbiteriana.

Naquele dia liguei para meu pai, já com 76 anos, e perguntei-lhe se se lembrava do Aharon. Disse que sim – e o provou dizendo o nome de sua irmã, Asniv, e de seu irmão (nome que me escapa agora).

Fiquei pasmo com a coincidência. Mas minha vida tem se caracterizado por inúmeros casos de coincidência parecidos como esse. Chamo-os de casos de provincidência – uma mistura de providência com coincidência.

Interesse por Michel Zévaco

Logo depois de nos mudarmos para Santo Andreé, em 1952, meu pai comecou a comprar uma série de livros de um autor francês chamado Michel Zévaco. Os primeiros livros da série se chamavam Os Pardaillan. Outros titulos incluiam Epopéia de Amor, Fausta, Pardaillan e Fausta, Fausta Vencida, O Pátio dos Milagre, A Ponte dos Suspiros, Amantes de Veneza, Nostradamus, O Capitan, Borgia, A Marquesa de Pompadour, João sem Medo, etc. Muitas das histórias giravam em torno do garboso Cavaleiro de Pardaillan e seu intrépido pai, mesmo quando o nome dele não figurava no título. Outras histórias não o tinham como personagem. A histórias todas se passavam na atraente e misteriosa França da segunda metade do século XVI. Sob influência de meu pai comecei a ler os livros e, como ele, apaixonei-me pelas histórias.

Um dia, em 1989, quando estava de novo em Genebra, na Suiça, prestando serviços para a Organização Mundial da Saúde, encontrei em uma livraria Fnac, em Les Halles, a série completa Les Pardaillan, de Michel Zévaco, em três densos volumes que, no total, perfazem quase quatro mil paginas [5]. Ao voltar a São Paulo, encontrei, meses depois, a obra, na Livraria Francesa, na Rua Barão de Itapetininga, 275. Não tive dúvidas: comprei-a, às vésperas do meu aniversário. (A data nos livros é 7 de Setembro de 1989 – mas como esse dia é feriado, imagino que tenha comprado os livros no dia anterior, e tenha colocado a data do meu aniversário para que ficasse registrado que os livros eram um presente que eu dava a mim mesmo).

A edição francesa contém um longo prefácio, de cerca de 140 paginas, escrito por Aline Demars, com o título “Michel Zévaco, Anarchiste de Plume et Romancier d’Épée”. Ali se informa que Zévaco nasceu em 1860 na Corsa e morreu em 1918, em Paris. A historiadora da literatura popular francesa explica que Les Pardaillan começou a ser publicado em Março de 1902, na forma de folhetim (“roman feuilleton”), com o título Par le Fer et par l’Amour.

Aline Demars informa que Zévaco foi um dos maiores sucessos literários do fim do século XIX e do início do século XX. Embora seu nome geralmente não conste dos compêndios de literatura francesa, por ter optado pele gênero “Literatura Popular”, publicada em folhetins, vários intelectuais importantes, entre eles Jean-Paul Sartre, admitiram ter sido fascinados pela obra de Zévaco quando eram crianças e adolescentes. Aqui no Brasil, como vim a saber oito anos depois, Darcy Ribeiro, em suas Confissões, menciona que Zévaco era uma de suas leituras favoritas quando criança e adolescente. Eu estava, portanto, em boa companhia… [6]

No mesmo dia em que comprei os livros em francês, ao voltar para o hotel, comecei a ler as histórias que havia lido 40 anos antes, agora no belíssimo francês do original. Em determinado momento, ao ler, numa das histórias de Zévaco, que o cavalo de Pardaillan se chamava Galaor, veio-me à memoria algo que aparentemente não me ocorrera quando eu lera os livros em português na década de 50: tive a nítida impressão de que, quando eu era menino, no Paraná, meu pai tivera um cavalo chamado Galaor.

Liguei para o meu pai, em Santo André, então já com 77 anos, e lhe perguntei se havia tido um dia um cavalo Galaor. Disse que sim. Perguntei-lhe a razao do nome, e a resposta foi a esperada: esse era o nome do cavalo de Pardaillan. Mas como seria isso possível, indaguei, se ele só veio a ler Zévaco quando veio para Santo André em 1952? Que nada, disse-me ele, em Santo André li tudo pela segunda vez. A primeira foi quando era menino, em Patrocínio. Os livros, continuou, eram vendidos naquela epoca na forma de foletim, um pequeno volume a cada poucos dias. Isso, nos anos 20 do século XX  [7].

Fiquei surpreso como fato de que um famoso autor popular francês, no início do século, tivesse seus folhetins semanais traduzidos para o português e que esses viessem a ser distribuídos até mesmo numa cidade pequena do então distante Triângulo Mineiro! E há muita gente que pensa que globalização é algo recente.

Seja lá como for, os Pardaillan, pai e filho, foram uma das poucas coisas acerca de que pai e filho estariam de acordo na esfera literária. Sempre estiveram.

Recentemente, meu sobrinho Vítor Chaves, ao comprar seu primeiro carro, batizou-o Galaor. Infelizmente eu não tive nada que pudesse ter batizado de Galaor. Quem sabe batize, retrospectivamente, meu Corolla de 12 anos de Galaor… Seria a segunda geração de Galaores na família, completada agora com o Galaor do Vítor…

Ideias

Teologicamente, meu pai era conservador, calvinista ortodoxo, tendente ao fundamentalismo. Politicamente, depois de ter tido algum interesse pelas ideias comunistas (menos o materialismo e ateismo), quando estava no Paraná, foi se movendo cada vez mais a direita, a ponto de admirar, dentre os Presidentes militares, Arthur da Costa e Silva mais do que qualquer outro. Na verdade orgulhava-se de parecer-se com Costa e Silva — algo que, pessoalmente, achava dificil de entender, ate porque o achava (a meu pai) muito mais bonito e simpático.

Gostava de controvérsias: escreveu inúmeros artigos contra católicos (tradicionais, progressistas e carismáticos), espiritas e adeptos de outras denominacoes evangelicas (batistas, pentecostais, Adventistas do Sétimo Dia, Testemunhas de Jeová, e até batistas e metodistas), criticando-os pela não aceitação da recta doctrina (ortodoxia) calvinista.

Dava enorme importancia à doutrina correta (ortodoxia) — mais do que à conduta correta, eu diria. O importante, para ele, era crer certo. A principal missão do pastor, para ele, era doutrinar as suas ovelhas. De certo modo assimilei dele essa visão de que religião, mais do que conduta correta (ética) ou comunhão entre os fieis (koinonia), era uma questão de aceitação de doutrinas (crença) e assentimento à sua presumida veracidade. Assim, quando vim a rejeitar as doutrinas, rejeitei ao mesmo tempo a religião, posto que não conseguia imaginar, naquela época, uma religião nao doutrinal. Quando comecei a rejeitar a doutrina, fui rejeitado pelo pastor e pai — ficamos cerca de dois anos sem conversar. A crença certa era mais imprtante até mesmo do que a comunhão familiar.

Hoje, felizmente, penso diferente. Foi essa mudança que me permitiu voltar para a igreja, 44 anos depois de ter saído dela.

A moralidade, para meu pai, era menos uma questão de agir, fazendo o bem, do que uma questão de não pecar, fazendo o que era errado. E o que era errado não era visto em termos de grandes questões (como, por exemplo, não cometer injustiças), mas em termos de “pequenos comportamentos”: não fumar, não beber, não dançar, não ir ao cinema aos domingos — até mesmo não ouvir a transmissão de jogos pelo rádio aos domingos!

Meu pai advertia as mulheres que vinham à igreja com blusa transparente ou saia curta. Num determinado momento proibiu que as mulheres viessem ao culto de calças compridas. Não fazia casamento de divorciados, negava comunhão aos que viviam juntos sem estarem casados, considerava o hossexualismo um pecado dos mais graves. Nisso tudo, entretanto, não estava sozinho dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil.

É isso. Quem sabe, por enquanto.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013

NOTAS:

[1]      As informações que seguem acerca de meu pai, exceto onde assinalado, e até uma nova manifestação minha a esse respeito, na Nota 3, são basicamente autobiográficas, retiradas que foram de resumo dos principais fatos de sua vida preparado por ele próprio e destinado a uma publicação feita pela Igreja Presbiteriana de Santo André, quando ele comemorou 40 anos de ordenação ao ministério em 1982. Para tornar a leitura mais fácil, porém, relato em primeira pessoa, como se eu houvesse registrado as informações. Alguns fatos foram acrescentados ao relato biográfico com base em outras anotações, também de autoria dele, feitas em sua primeira Bíblia, ganha do Rev. Eduardo Lane como presente de Natal no ano de 1932, e que hoje está guardada sob minha responsabilidade.

[2]      Com data de 28 de fevereiro de 1931, quando ele tinha, portanto, 18 anos, meu pai transcreveu, em um caderno de capa dura, e em caprichada letra de imprensa, 39 páginas de um trecho sobre a “A Matança dos Protestantes, em Paris, no dia 24 de Agosto de 1572, Domingo, Dia de São Bartolomeu”, retirado do romance histórico de Michel Zévaco chamado “Epopéia d’Amor”. Depois de transcrever, escreveu, de próprio punho: “Não nos admira nada que tal coisa acontecesse, porque isso é o cumprimento da prophecia do Apocalypse, que, referindo-se à Egreja Romana (que mais tarde havia de apostatar), disse: ‘E não luzirá mais em ti a luz das lâmpadas, nem se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa, porque os teus mercadores eram príncipes da terra, porque nos teus ensinamentos erraram todas as gentes. E nella (na Egreja) foi achado o sangue dos prophetas, dos santos, e de todos os que foram mortos sobre a terra’ (Apocalypse 18:23,24). ‘E a mulher (a Egreja Romana) estava vestida de púrpura e de escarlata, adornada com ouro, pedras preciosas e pérolas . . . e na sua fronte estava escripto este nome: Mistério! Babilônia, a Grande, a mãe da fornicação e das abominações da Terra. E a mulher achava-se embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus’ (Apocalypse 17:4,5,6). O castigo dessa egreja apóstata será grande, e, por isso, a todos dirige o Senhor este apêllo: ‘Sahi della, povo meu, para não serdes participantes dos seus delictos, e para não serdes comprehendidos nas suas pragas. Porque os seus peccados chegaram até os céus, e o Senhor se lembrou das suas iniqüidades’. (Apocalypse 18:4,5).” Fim da citação. Só 22 meses depois Oscar Chaves iria formalmente abraçar a Igreja Presbiteriana. Mas sua convicção acerca da Igreja Romana estava firmada bem antes disso, como demonstra não só a citação, mas o esforço necessário para transcrever a mão, em letra de imprensa, 39 páginas de um texto vibrante de denúncia das atrocidades cometidas pelos Católicos contra os Protestantes (Huguenotes) naquele Domingo de São Bartolomeu em Paris, no ano de 1572.

[3]      A partir daqui, acréscimo meu.

[4]      O Rev. Evandro, pelo que consta, continua seu trabalho de dividir igrejas – até mesmo no exterior.

[5]      Michel Zévaco, Les Pardaillan (Coleção Bouquins, Robert Laffont, Paris, 1988). Os dez livros que compõem essa coleção são, no original francês: Volume I (dois livros e meio): Les Pardaillan, L’Épopée d’Amour, La Fausta; Volume II (quatro livros e meio):La Fausta (suite), Fausta Vaincue, Pardaillan et Fausta, Les Amours du Chico; Volume III (quatro livros): Le Fils de Pardaillan (deux livres), La Fin de Pardaillan, La Fin de Fausta.

[6]      Descobri, também, em 1989, em conversa pessoal, quando participávamos do Comitê que fez propostas e recomendações acerca da criação da Universidade Tecnológica de São Paulo (apelidade na impressa de “Universidade da Zona Leste”), que Ubiratan D’Ambrósio, meu colega na UNICAMP, era também um grande admirador de Zévaco, cujos livros havia devorado quando criança e adolescente.

[7]      Tempos depois, ao vasculhar os papéis de meu pai, depois de sua morte, encontrei o caderno, já mencionado, em que ele transcreveu, em 1931, um trecho de Epopéia de Amor, sobre a matança dos protestantes na França no Domingo de São Bartolmeu, 24 de Agosto de 1572, como mencionado no texto.

Discurso de Formatura – 1963

[Discurso de formatura, ao final do Segundo Ciclo do Ensino Secundário (Curso Clássico), hoje Ensino Médio, proferido por mim, no dia 30 de novembro de 1963, no Auditório Waddell, no Instituto “José Manuel da Conceição”, em Jandira, SP. Foi paraninfo, na ocasião, o Deputado Camilo Ashcar.

Lembrei-me desse discurso hoje à tarde quando pesquisava algumas coisas na Internet sobre o tema “Escola da Vida”. Recente registrei os domínios escoladavida.net e escoladavida.net.br. Ocorreu-me que no meu discurso de formatura havia feito menção desse tema. Quando encontrei e reli o discurso, achei que merecia ser transcrito aqui. Quando o escrevi tinha 20 anos. Comecei a escola tarde. Estava pronto para ir para o Seminário Presbiteriano de Campinas. O rapaz cheio de fé que saía do Conceição ia passar por várias crises intelectuais e espirituais em Campinas, e depois.

 o O o

Excelentíssimas autoridades presentes, senhoras e senhores, caros colegas:

Há meses, quando fomos escolhidos para aqui na frente representar o pensamento dos que ora se formam, começamos a pensar sobre o que diríamos. A primeira idéia que nos apareceu foi a de basear nossa fala em algum pensamento sábio e bem apresentado por alguém, pois discursos, geralmente, são iniciados assim. Começamos, então, a manusear Dicionários de Citações, Enciclopédias de Pensamentos e outras obras congêneres. Por incrível que pareça, porém, o dito pensamento, sábio e bonito, com que iniciaríamos nosso discurso nesta noite não apareceu.

Foi nessa ocasião, quando estávamos sem idéia de como principiar o nosso falar e sem idéias de como desenvolvê-lo, que nos lembramos do discurso do orador da turma dos formandos de 1961, ano em que aqui chegamos. Ele se baseou no primeiro versículo do Salmo 124: “Se não fôra o Senhor que esteve ao nosso lado…”. Ao lembrarmos disso, veio-nos a idéia de nos basearmos também na Bíblia para a nossa conversa de hoje. Enfim, não é a Bíblia a fonte da mais profunda sabedoria, a revelação divina ao homem? Certo dia, enquanto líamos a Palavra de Deus, notamos dois versículos de um Salmo e alguma coisa nos avisou: — “Aí está o discurso de formatura. Desenvolve isto”.

“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.

Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé”.

Estes são os versículos número sete e oito do vigésimo Salmo.

Quando Davi escreveu essas palavras, estava em guerra, sentia diante de si e de sua nação o rumor de povos inimigos que, poderosos na luta corporal, frente a frente, possuíam ainda a vantagem de contar com carros e cavalos na batalha. Mas, apesar disso, Davi confia no Senhor, Deus dele e nosso Deus, mais que nos carros e cavalos do inimigo. Davi, milhares de anos antes, já pensava como São Paulo:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

Este Salmo é dividido por alguns em duas partes: um canto de batalha seguido de um canto de vitória. E sempre será assim: batalha, aos nossos olhos, sempre estará relacionada com vitória. Nunca haverá verdadeira vitória sem batalha, apesar de existir muita batalha em que não há vitória. Mas, para aqueles que fazem menção do nome do Senhor, para aqueles que põem a confiança no Senhor dos Exércitos, batalha será sempre prenúncio de vitória. Acabamos de combater em mais um curso e hoje conseguimos a vitória. Mérito nosso? De modo algum, porque se o Senhor nosso Deus não estivesse ao nosso lado, nada disso teríamos conseguido.

Gostamos, porém, de provar aquilo que dizemos. Será que Davi tinha razão para colocar tão grande confiança em Deus, tinha razão para crer tão firmemente na vitória confiado apenas na ajuda e proteção divinas?

Os povos inimigos de Israel possuíam, como arma de guerra, carros puxados por cavalos e com foices nas rodas, carros esses que cortavam homens e ceifavam vidas como se corta a grama e se ceifa o trigo. Possuíam milhares de cavaleiros que, armados, poderiam pisotear e esmagar pobres israelitas para quem um simples escudo valeria de pouca coisa. Valeria a pena confiar em um Deus invisível, quando armamentos visíveis e palpáveis vinham prontos para destruir tudo?

Davi, contudo, tinha razões para dizer o que disse. Por quê?

PRIMEIRO: Porque a história do povo de Israel, no passado, provava que Deus realmente merece confiança.

Fôra Deus quem, com forte mão, tirara o povo da escravidão do Egito, e quando os egípcios, com carros e cavalos, vieram após eles, valeu mais a confiança em Deus, que sobre os perseguidores fechou o Mar Vermelho. CARROS — apodreceram no fundo do mar; CAVALOS — matou-os a água; HOMENS — jazeram mortos, boiando na superfície do mar. E DEUS? — DEUS GUIAVA SEU POVO (Êxodo 14).

Outra vez os Filisteus reuniram-se para atacar os israelitas e estes temeram. Samuel, porém, orou a Deus e ofereceu sacrifícios e “o Senhor trovejou com tão grande trovoada aquele dia que aterrou os filisteus, que fugiram, perseguidos pelos homens de Israel” (I Samuel 7).

SEGUNDO: Davi, porém, podia afirmar o que afirmou, não só pela experiência do passado, mas pela sua própria experiência.

Desde cedo ele experimentara a mão de Deus o ajudando, desde cedo aprendera confiar em Deus. Menino ainda matara um urso e um leão. Rapazote, dispõe-se a enfrentar o gigante Golias que estava para Davi na mesma proporção que um exército de carros e cavalos para um sem esses recursos. — “Não podes ir contra ele”, disse o rei Saul, “pois és moço, inexperiente, e ele é homem velho, experimentado na guerra”. Davi, com custo convenceu o rei de que poderia sair contra o gigante. O rei pôs nele, então, uma armadura. Davi tentou andar e disse: — “Nunca experimentei isso e não consigo andar”, e, tirando tudo aquilo, pegou a sua funda, enfrentou e venceu o terror de Israel (I Samuel 17).

Certa vez Davi tomou na guerra mil cavalos de carros e sete mil cavaleiros. De outra vez feriu sete mil cavalos de carros dos siros e suas tropas eram constituídas apenas de infantaria, porque Deus havia proibido aos reis de Israel a multiplicação de cavalos (I Crônicas 18 e 19). Não tinham cavalos nem carros, porque Deus os proibira, mas tinham o Deus de todos os exércitos e de todas as milícias como Comandante.

Tinha, portanto, Davi, então rei de Israel, razão vinda da experiência quando dizia: “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.”

Mas poderemos nós, formandos de 1963, também dizer isso? Temos nós razões? Como Davi, temo-as de sobra. De fato aprendemos que a confiança em Deus é milhares de vezes mais valiosa que a confiança em homens e em coisas terrenas. As fontes terrenas de confiança são várias, mas ao mesmo tempo mostram, pela sua inconstância, pelo seu poder limitado, pela sua breve duração, que são falhas, que em um momento ou outro nos podem faltar.

Mas, dizíamos, aprendemos a confiar em Deus pelas mesmas razões que Davi aprendeu.

PRIMEIRO: Porque a experiência daqueles que por aqui já passaram, daqueles que nesta casa um dia já “queimaram suas pestanas”, nos ensinou que compensa confiar em Deus, mesmo quando as coisas parecem ir de mal a pior.

Um pastor contava, certa vez, no Acampamento “Palavra da Vida”, a sua experiência. Estudava ele aqui, estava passando por dificuldades financeiras e não ia bem nos estudos. Estava quase desanimado de estudar, mas continuava porque recebia uma bolsa de uma igreja pobre que cobria apenas suas necessidades para com o estudo. Nessa situação, recebeu uma carta da dita igreja dizendo que, infelizmente, em virtude da situação lá não ser boa, não poderia mais dar-lhe a bolsa. Ia desistir de estudar, mas, antes, em conversa com um dos dirigentes, recebeu uma palavra de exortação para confiar em Deus. Foi para o seu quarto, orou, e na leitura da Escritura Sagrada encontrou a resposta de Deus para o seu problema: Ei-la, em Atos capítulo vinte e seis, versículo dezesseis: “Mas levanta-te, põe-te sobre os teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda”. Aquilo renovou-lhe as forças e o ânimo. O então rapaz decidiu que Deus realmente merece confiança e hoje é um dos eficientes pastores de nossa igreja.

Poderíamos citar outros exemplos, mas cremos que muitos aqui conhecem fatos similares, e são esses fatos, do passado, que nos fazem dizer como o salmista.

Mas não é só.

SEGUNDO: A nossa própria experiência também nos autoriza a dizer: “Faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus”.

A nossa vida aqui é uma vida de confiança e de fé em Deus somente. Quantas vezes já temos sentido a mão de Deus nos trazer o auxílio de que necessitávamos, no momento exato. Na hora oportuna Ele vem e atende as nossas orações, Ele vem e ajuda. Essas experiências, materiais, são superficialíssimas, porém, se as compararmos com as profundas e espirituais demonstrações de ajuda divina em nossas vidas. Muitas vezes o estudante se desanima, quer pela dificuldade nos estudos, quer pelos anos que ainda tem por vencer, e nessas horas fica abatido, acabrunhado, sem saber o que fazer, derrotado por “carros e cavalos”. Mas quando se lembra de que se deve fazer menção do nome do Senhor, e faz isso, sente a mão divina levantá-lo, erguê-lo, soerguê-lo e colocá-lo num lugar onde ele jamais esperaria estar. Esses fatos são de nossa experiência, da experiência de cada um dos colegas.

Temos, por isso, razões para repetir as palavras do grande rei Davi, o homem “segundo o coração de Deus”. Fatos que o autorizaram a dizer aquilo no passado autorizam-nos, da mesma maneira, a dizer o mesmo neste dia em que nos alegramos pela conquista desta vitória. Foi uma vitória que se seguiu a um combate, duro, na verdade, difícil de ser combatido, pois realizou-se em campos de batalha ásperos, pedregulhosos, ressequidos, com armas que muitas vezes não foram as melhores, mas tínhamos e ainda temos o Senhor dos exércitos como Comandante. E qual a conseqüência de confiar nEle, de tê-lO como supremo General de nossas lutas e batalhas? É o próprio Davi quem a dá, continuando o seu Salmo: “Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé”. Enquanto os que confiam em carros e cavalos “encurvam-se e caem”, eis-nos de pé, alegres, triunfantes, vitoriosos. A confiança em Deus é de fato bem recompensada. Não há melhor recompensa para aquele que luta que a vitória, e esta Deus nos concede nesta noite, por nEle havermos posto a nossa confiança.

o O o

Não poderíamos, entretanto, ir embora, trilhar outros caminhas, seguir novos rumos, sem deixar aqui uma palavrinha sobre o “Conceição”, o nosso querido “Conceição”, que nos marcou profundamente, que deixou assinalada a vida e a personalidadede cada um de nós. Façamos isto.

Há alguns meses, quando em um trabalho com um grupo em São João da Boa Vista, externamos lá nossa opinião sobre o “Jota” baseando-nos em uma quadra de poeta patrício, desconhecido da maioria, que vive em Americana: Antonio Zoppi. Diz ele, em uma simples quadra:

“Sapiência não se esmola,
deve ser adquirida:
na doce vida da escola
ou na acre escola da vida”.

Palavras sábias essas, e que servem para ilustrar e provar qual é a missão do JMC. Diríamos que o “Conceição” é o lugar adequado para jovens adquirirem, ou começarem a adquirir, o que o poeta chama de “sapiência”, ou seja, sabedoria que orienta a prática. No “Conceição” reúnem-se a doce vida de escola e a escola acre da vida.

É uma vida de escola porque o “Jota” é, como os outros, um colégio onde se aprendem as disciplinas acadêmicas básicas e fundamentais. Talvez só deva ressaltar o nível mais alto que o aluno deve alcançar para ser aprovado. No restante, o colégio é semelhante aos outros.

O queremos frisar, porém, é que o JMC é uma escola da vida, muitas vezes acre e difícil, onde muitos não conseguem permanecer. O ambiente, aqui, às vezes, é completamente diverso daquele que um calouro esperaria e ele sofre o impacto. Mas, passado o primeiro choque (que, muitas vezes, não é, infelizmente, ultrapassado, pois há calouros que chegam numa tarde e na manhã seguinte se vão, dizendo que não se acostumariam), o aluno sente que vai se modificando, vai tomando partidos, tirando opiniões próprias — coisas que antes não ousava fazer. Aos poucos, dando algumas “burradas” e pagando por elas o caro preço de uma impiedosa caçoada, o aluno vai se formando, vai aprendendo, na escola da vida, a tornar-se Homem. Ele que em casa nunca pensava em arrumar sua cama, agora arruma-a e bem. Ele agora limpa seu quarto, lava e passa sua roupa. Ele, que muitas vezes era um sucesso um sua cidadezinha natal, vê-se aqui completamente ofuscado por outros, já mais orientados e de maior experiência, e então sofre grande decepção. Mas esta lhe ensina que ele deve esforçar-se mais para ser alguém melhor, e, assim, ele vai sendo lapidado. Com o tempo, torna-se um “Manuelino”, na verdadeira acepção da palavra.

O aluno que saiu de casa acha no “Conceição”, na maior parte das vezes, a vida difícil e áspera, mas a vida onde ele se encontra a si mesmo, onde desabrocha, desenvolve-se e demonstra o que poderá tornar-se.

Para os que saem de um lar o “Jota” é a vida independente e livre. Para aqueles, porém, que cedo perderam pais e família e viveram sem nunca encontrar o aconchego familiar, o “Conceição” é lar e os Manuelinos, família. Parece paradoxo, mas é verdade. Quantos, sem lares, acharam aqui o lar que lhes faltava, encontraram aqui os irmãos que a vida negou ou a morte levou. O “Conceição” é a escola acre da vida, mas pode ser também o lar que porventura tenha faltado a alguém.

O “Conceição” tem, aproveitando a imagem de um de nossos professores, a missão de lapidar a pedra bruta e sem brilho que muitas vezes aqui chega. Então, ela começa a tomar forma, ganha brilho e aparece aos olhos do mundo como uma pedra preciosa. A outrora pedra bruta fica irreconhecível.

Deveríamos, neste instante, agradecer a pais, professores, igrejas, e todos quantos nos ajudaram, mas deixaríamos pessoas de fora. Agradecemos, então, a Deus, que nos trouxe aqui e fez com que tantos nos ajudassem. Agradecemos a Deus por tudo e pedimos que Ele abençoe a todos que, de uma maneira ou de outra, nos ajudaram. Ele recompensará cada um pelo que nos fez.

Nós, que no início não encontrávamos idéias para iniciar e desenvolver nosso discurso, acabamos falando demais. Não faz mal, porém, pois é a última vez que falamos como Manuelino e o ouvinte querido não levará em conta se nos estendemos muito. O culpado disso é este lugar inspirador e mesmo romântico que é o “Conceição”. Quando começamos a falar, é difícil parar.

Chegamos ao fim de nossa etapa no “Conceição”. Alguns, do Primeiro Ciclo, voltarão para fazer o Clássico, mas nós que não voltaremos mais já sentimos em nós a ternura da saudade. Quantas vezes dissemos que não víamos a hora de chegar o fim do ano. Mas, quando o fim do ano chega e nos vai levar embora, sentimo-nos como o lenhador que, cansado na floresta, invocara a morte. Quando esta chegou, ele, arrependido e assustado, pediu apenas que ela o ajudasse a pôr nas costas o feixe de lenha. Invocamos o fim de ano e ele chegou — e ficamos acabrunhados, desejando encontrar uma desculpa para adiá-lo um pouco.

Amanhã, muitos de nós tomarão o trem para nunca mais voltar ao “Conceição” querido, como Manuelinos. Muitos voltarão, sim, mas como EX-Manuelinos, coisas do passado, nunca mais como Manuelinos. Hoje, nesta condição, ouviremos pela última vez a sinfonia dos sapos e dos grilos cantando, inspirados pelo céu do “Conceição”. Algum dia, no futuro, voltaremos aqui, e quantas recordações então nos virão à mente. O “Jota” será diferente, mas nos fará lembrar do de agora e teremos orgulho em termos sido Manuelinos.

Adeus, “Conceição”, praza aos céus que continues a ser o que tens sido, de maneira cada vez melhor. Adeus tudo isto que foi parte da gente durante tanto tempo.

Amanhã será um novo dia, e com ele começará uma nova etapa, uma nova vida, e é mister que trabalhemos.

AVANTE POIS.

JMC, Novembro de 1963.

Transcrito aqui em 24  de Outubro de 2013.

Coisas Importantes, a Propósito da Igreja da Boate

Hoje cedo, ao ver um link no Facebook sobre “Igreja funciona dentro de boate na rua Augusta” postado por meu professor, regente, pastor, amigo e irmão João Wilson Faustini, curti e compartilhei.

Eis o link: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/961117-igreja-funciona-dentro-de-boate-na-rua-augusta-veja-video.shtml.

Fui além. Coloquei vários comentários. Disse:

“Curioso… Protestantismo é assim mesmo, aberto, open-ended… Isso nunca aconteceria no Catolicismo, mesmo com o Papa Francisco.”

“O protestantismo não lança âncora apenas em catedrais…” (porque eu, afinal de contas, frequento uma igreja protestante – presbiteriana e independente – que congrega em uma catedral.

“Gostei do slogan. Transcrevo a reportagem: “A Capital permite a ingestão de bebidas alcoólicas, desde que com moderação. Sexo, melhor dentro do casamento. ‘O projeto ideal é a castidade, mas, se não é essa a sua realidade, vamos seguir o caminho da reparação’, aponta o pastor. Gays são bem-vindos. ‘Na Augusta, é natural que eles frequentem. Nosso slogan é: Proibido Pessoas Perfeitas”.”

“Ou seja… ‘Perfeitos, fiquem em casa: aqui não é o seu lugar’. Em outras palavras, ‘Fariseus [como na parábola do Fariseu e do Publicano], fiquem em casa ou vão arrotar sua santidade e perfeição em outro terreiro… Aqui só aceitamos publicanos, que se reconhecem pecadores e imperfeitos’. Acho genial isso. . .”

“Recomendo o livro Salvos da Perfeição, do pastor Elienai Cabral Júnior, que tem como subtítulo: ‘Mais Humanos e Mais Pertos de Deus’ (vide http://ultimato.com.br/sites/salvos_perfeicao/). Um chamado para o livro diz: ‘O Deus bíblico insiste em se encontrar conosco não em outra vida, mas na vida’ “.

Gosto da ambiguídade no sentido do termo “vida”, no finzinho da última frase do último parágrafo. Faz lembrar a expressão “mulheres da vida”. Jesus foi acusado de se associar com pecadores, publicanos, samaritanos, e até prostitutas, mulheres da vida. “O Deus bíblico insiste em se encontrar conosco não em ‘outra vida’, mas na vida”. Ao lerem a citação de C S Lewis, ao final, lembrem-se disso.

Sou, politicamente, um liberal à moda antiga que está virando um anarquista de extração libertária. Ao curtir a Igreja da Boate me percebi também um anarquista libertário no campo teológico. Opto por considerar que, no campo teológico, sou apenas protestante. Protestante ao estilo radical. Protestante anti-fundamentalista. Protestante contra os fundamentalismos. Todos eles.

Conversando com a Paloma, minha mulher, enquanto tomávamos um chocolate, hoje cedo, indaguei, mais na forma de uma pergunta retórica, de onde viria esse meu anarquismo radical. Ela disse: “Seu pai foi assim. Era membro da Congregação Mariana, largou e foi ser pastor protestante”.

Essa observação me fez refletir. No meu melhor julgamento, meu pai largou um fundamentalismo para abraçar outro. Foi protestante fundamentalista a vida inteira. A transição de um para o outro foi imediata. Em certo sentido, apenas trocou de sinal.

No meu caso, era fundamentalista, quando adolescente, quando decidi me tornar pastor (em 1960), quando fui para o Instituto José Manuel da Conceição (em 1961), quando fui para o seminário em Campinas (em 1964). Aos poucos fui mudando. E a mudança foi lenta e gradual. Quando resolvi formalmente abandonar a igreja presbiteriana, por volta de 1972, quando terminei meu doutorado em Pittsburgh, PA, e conversei com meu orientador, o popperiano William Warren Bartley III, dizendo que estava pensando em me tornar membro da American Humanist Association, ele me advertiu sabiamente: “Não troque simplesmente uma igreja por outra…”.

Quando li Ayn Rand (Atlas Shrugged, primeiro), no final de 1972, teria ido e me juntado ao que alguns chamam de “Culto de Ayn Rand”, não fosse a advertência de Bill Bartley. “Não troque simplesmente uma igreja por outra…” Fiquei admirador dela, mas sempre crítico. Sempre mais do lado de David Kelley do que de Leonard Peikoff (quem ler, entenda… como diz meu amigo Enézio Eugênio de Almeida Filho – que também sempre diz que devemos sempre olhar as coisas “cum grano salis“. Talvez ele não diga “sempre”: diz de vez em quando. O “sempre” é por minha conta).

Quase disse, atrás, Atlas Shrugged não é a Bíblia… Mas a Bíblia, para mim, não é – como dizer? – a Bíblia! (Novamente, quem ler, entenda…).

Em suma, acho que, ao abandonar o meu fundamentalismo inicial, consegui, com ajudas inestimáveis, não ir para outro fundamentalismo, trocar um pelo outro. Tornei-me um combatente contra os fundamentalismos. Todos. Protestante, católico, judeu, muçulmano, marxista, petista… Por isso nunca me afiliei a um partido político.

Alguém pode me retorquir: mas você voltou para a igreja, é hoje membro da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.

Isso é verdade. E requer uma explicação, ainda que rápida. A ocasião é oportuna.

Gosto muito de um hino que me lembro de ter ouvido em uma Cruzada do Billy Graham no estádio dos Pitt Panthers, em Pittsburgh, PA, em 1968. Era o hino do apelo. “Just as I am” (“Eu venho como estou”).

Estou na Primeira Igreja (Catedral Evangélica) hoje porque ela me aceitou “Just as I am“. Cheio de falhas, no plano moral, cheio de dúvidas, no intelectual. Mas querendo voltar para uma comunidade, que não é dos santos nem dos perfeitos, mas daqueles que, reconhecendo sua condição de pecadores e imperfeitos, querem melhorar e reconhecem que precisam de ajuda – sabendo que santo e perfeito ninguém conseguirá se tornar, nesta dispensação, e que aqueles que se acham perto da santidade e da perfeição, ou, talvez, mais perto dos que os outros, se enganam a si próprios (dificilmente enganam os outros). Tal qual o Fariseu da parábola. Estou na Primeira Igreja porque ela me reconheceu Publicano, e me aceitou como tal.

Por isso curti a reportagem sobre a Igreja na Boate. Por isso estou aqui combatendo meu bom combate contra os fundamentalismos, contra os farisaísmos, crente de que não preciso ser santo nem perfeito, para viver em comunhão com o meu próximo (haja vista o Samaritano da parábola), e, assim, com Deus. Ele, disse Martin Buber, não está aqui nem ali: está entre um e outro, “entre mim e ti”. Daí o seu livro I and Thou.

Minha saída da igreja começou em 1966, quando estava no terceiro ano do Seminário Presbiteriano de Campinas. Envolvi-me, então, com a maioria de meus colegas, naquela que talvez tenha sido a maior briga de minha vida (houve outra em 1981 que concorre, mas perde). No primeiro semestre de 1966  escrevi, no jornal de que era redator, O CAOS em Revista (chamado de “famigerado” por um professor meu – o “rabi” mencionado no artigo – que, coincidentemente, faleceu a semana passada, decretando o fim de uma era), o seguinte artigo-sermão, chamado “Parafraseando”:

—– Início de citação de artigo anterior meu —–

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabi nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo, o fundamentalista da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, a sua conduta, o seu modo de ser, agir e pensar, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude, que lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que, nada mais tendo de que se orgulhar, orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, aos “perfeitos”, e a sentença de que o publicano havia sido justificado, deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas considerado IMORAL e HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade e perfeição.

—– Fim de citação de artigo anterior meu —–

Isto escrevi em 1966. Em dois anos e pouco esse artigo fará 50 anos. Acho que durante esse tempo todo tenho sido fiel ao que disse então.

Estou na Primeira Igreja hoje porque ela me aceitou e acolheu sem exigir que eu deixasse de ser fiel ao que expus-preguei nesse artigo-sermão. Porque ela, a seu modo, concorda com o slogan da Igreja da Boate, e afirma (num Português um pouco mais castiço e de forma não tão radical): “Santos e perfeitos não precisam entrar”. Estou certo de que a Primeira Igreja não proibiria a entrada de pretensos santos e perfeitos. Deixaria que entrassem, na esperança de que sua mensagem de humildade, tolerância, e aceitação os alcançasse.

É isso.

Termino citando C S Lewis, em Cristianismo Puro e Simples (Mere Christianity), numa passagem que o Rev. Valdinei Aparecido Ferreira, pastor titular da minha igreja, citou ao final de um sermão seu sobre a homossexualidade:

“Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. Mas o diabólico é o pior dos dois. É por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta”.

É por essa e por outras que eu estou na Primeira Igreja. E que muitos que se acham “homens segundo o coração de Deus” a criticam.

[Este artigo é em gratidão a Deus pelo meu quinto aniversário de vida conjunta com a Paloma. Em gratidão a ela, por ter sido o instrumento que acabou me levando de volta à Primeira Igreja, que passou a ser também a igreja dela. Em gratidão à Mary Grace Andrioli, amiga e irmã, por ter nos apoiado sempre, mesmo quando era difícil. E em gratidão ao Elizeu, amigo e pastor, que nos acolheu tão bem na sua igreja, hoje também nossa. E em gratidão aos pastores, presbíteros, diáconos, irmãos e amigos da Primeira Igreja por criarem, para nós, um ambiente tão acolhedor e agradável. Se a gente ainda tinha alguma dúvida, o fim de semana de “Ressurgência” em Serra Negra removeu-a totalmente.]

Em São Paulo, 6 de Setembro de 2013.

 

O Homem das Ações Simbólicas

O Papa Francisco conhece, talvez como ninguém, a importância dos símbolos. Sabe que as pessoas olham para ele como exemplo e não desperdiça uma ocasião sequer para mostrar, através de suas ações, o que importa e o que não é importa, o que é essencial e o que é acessório.

Na vestimenta, a dispensa do luxo, da beleza  e das cores em exagero, do excesso… Na cabeça um simples solideo branco. Nada de chapéu alto de não sei quantas pontas. Nada de mantos de veludo bordados a ouro. Nada de brilhantes e vistosas sapatilhas vermelhas. O anel é simples e não precisa ser de ouro. Também não o crucifixo que usa.

Nas locomoções, a sobriedade. Não tem um AeroPapa. Veio para o Brasil num avião fretado da Alitalia. Recusou a oferta da companhia de instalar uma cama para ele poder dormir com mais conforto. Aqui, dispensou longas limousines pretas. Usou um Fiatzinho popular, que nem vidro elétrico tinha. Abaixou o vidro para ter contato com os fieis rodando a manivela. Indo e vindo para o avião, carregou sua própria malinha. Em Roma, depois de eleito, burlava a segurança e saía do Vaticano de taxi para visitar amigos.

Nas acomodações, também sobriedade e simplicidade. Em Roma dispensou o rico apartamento papal e continuou a viver em dependências idênticas às dos cardeais. No Rio ficou na casa da arquidiocese. Quarto monástico quase. (Nada da suíte real que faz o gosto da presidente do Brasil).

Mostrou que não teme o povo. Recebeu o povo sempre com um sorriso e a mão estendida. Nenhuma fez fechou o vidro do carro porque o povo poderia toca-lo. E fez questão de, em relação aos políticos, só cumprir o mínimo do protocolo. Não deu “carona” a eles, não deixou que eles usufruíssem do carinho e da afeição que o povo lhe dedicou.

Na comunicação com o povo, pregou sempre de forma simples, em linguagem fácil de entender, usou o humor, cativou, mostrou conhecer os gostos, os hábitos e até mesmo os ditados do povo.

Consta que, ao sair um dia de seus aposentos, viu um guarda suíço que havia passado a noite ali à porta, de pé, e lhe perguntou se havia passado toda a noite inteira de pé, ali. O guarda respondeu que sim. Foi de volta para os aposentos e trouxe uma cadeira. “Sente-se”, sugeriu. O guarda disse que não podia. Perguntou por quê. “Por ordem de meus superiores”, teria respondido o guarda. “Você está trabalhando para mim agora e eu lhe digo que você pode ficar sentado”. Voltou aos seus aposentos e retornou com um pedaço de pão e presunto para o guarda — que deveria estar não só cansado, mas com fome…

Apesar de Papa, Francisco mostrou que é povo, é gente que ri, que se diverte, que tem prazer na vida, que tem preferências esportivas e torce no futebol… Sente prazer em estar com as pessoas — e, segundo tudo indica, também sente prazer em estar sozinho, consigo mesmo. Certamente não é dos que preferem o cheiro de cavalos ao cheiro de gente, mesmo que a gente esteja há várias horas nos elementos, tomando sol e chuva, esperando para ve-lo e, se possível, toca-lo, falar com ele… Um repórter da Globo não resistiu e falou meio de longe com ele, gritando, que estava no papamóvel… Ele olhou, sorriu, e respondeu…

Todo esse jeito de ser é recheado de simbologia. As menores ações têm significado e podem mudar a vida de outras pessoas.

Consta que Desmond Tutu uma vez relatou que, na África do Sul, um dia, quando criança, andava com seu pai na rua, e, como era lei e costume, eles, negros, tinham de descer da calçada quando encontravam um branco vindo em sua direção, para dar passagem. Até que um senhor branco, já de certa idade, veio em sua direção e fez questão de, antes que eles descessem da calçada, descer ele próprio, para dar passagem ao pai e ao filho. Tutu ficou tão impressionado com o gesto que buscou saber quem era aquele senhor. Quando soube que se tratava de um padre anglicano, decidiu, naquela mesma hora, que era isso que ele queria ser na vida. E foi. E é. E até ganhou o Nobel da Paz por ser o que é como é.

Símbolos fazem isso. Mostram as coisas como elas deveriam ser. E mostram quão pequenos, no que importa, no que é essencial, são aqueles que, quando chegam ao poder, apesar de suas origens humildes, escolhem se esbaldar. Compram, com o dinheiro que é dos outros, helicópteros para levar seus cachorros passear. Ou toalhas de banho e lençóis dos mais caros tecidos egípcios para colocar no Palácio do Planalto. Que não sabem mais carregar a sua pasta. Que não enxergam a situação muitas vezes ridícula daqueles que os servem e cuidam de sua segurança. Que usam os aviões do estado para ir a festas e casamentos, ou para ir assistir aos jogos da seleção…

Em São Paulo, 29 de Julho de 2013.

“Et Dieu Créa la Femme…”

Em 1956, quando eu estava para fazer 13 anos, Roger Vadim lançou “Et Dieu Créa la Femme…” (“E Deus Criou a Mulher”), filme que explodiu em sucesso no mundo inteiro porque nele Brigitte Bardot (sua mulher, e então a musa do cinema mundial), tal qual Eva antes da queda, aparecia nua… (coisa não muito comum naquela época). O filme era proibido para menores de 18 anos. Por isso, só fiquei no desejo de ve-lo. E sofrendo ao ouvir os relatos dos colegas mais velhos…

Curiosamente, na Bíblia há dois relatos da criação do homem e da mulher.

O primeiro, bastante sucinto, no capítulo 1 de Gênesis, versos 27-28a, simplesmente diz:

“Criou  Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra'”.

O segundo, bem mais detalhado, no capítulo 2 de Gênesis, versos 7, 18, 21-24, diz:

“Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente. . . . Então o Senhor Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda’. . . . Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: ‘Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’ Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha”.

Há várias curiosidades nesses relatos.

O primeiro dá a impressão de que Deus criou homem e mulher ao mesmo tempo e do mesmo jeito – sem dizer qual foi o jeito. Fica ali a impressão de total igualdade entre o homem e a mulher.

O segundo preenche alguns detalhes – e quebra a impressão de igualdade. Primeiro, conforme se informa, Deus criou o homem a partir do pó da terra. Depois de soprar-lhe a vida nas narinas, Deus notou que o homem estava só (como poderia não estar, se a mulher não havia ainda sido criada, não é mesmo?), e que isso não era bom (provavelmente porque, nessa situação solitária, iria ser impossível que o homem se multiplicasse sozinho e enchesse a terra!). Assim, aparentemente como um after thought, Deus criou a mulher, a partir de uma costela de Adão.

A aparência de desigualdade entre os dois transparece em dois fatos: primeiro, o homem, neste segundo relato, claramente foi criado primeiro, a mulher tendo sido criada apenas porque ele estava só e isso não era bom (aparentemente por causa da impossibilidade de se reproduzir sozinho); segundo, a mulher não foi criada pelo mesmo processo (pó da terra, sopro nas narinas), mas, sim, a partir de um parte do corpo do homem (uma costela), fazendo com que sua existência dependesse da dele.

É esse fato que fez com que os escritores do Novo Testamento dissessem, centenas de anos depois:

Efésios 5:22-24: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, . . . pois o marido é o cabeça da mulher. . . .  Maridos, ame cada um a sua mulher”.

Colossenses 3:18-19: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido… Maridos, ame cada um a sua mulher e não a tratem com amargura”.

I Pedro 3:1,7: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido… Vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil”.

Ou seja, o relato do capítulo 2 de Gênesis sugere que o homem é superior à mulher, porque esta surgiu dele e por causa dele. É por isso que o Novo Testamento diz que ele é o cabeça da mulher e que ela é a parte mais frágil, e insiste que, enquanto a mulher deve se sujeitar (obedecer) ao seu marido, este, como seu cabeça, deve ama-la, ser sábio no convívio com ela, trata-la com honra, não trata-la com amargura.

Com base nesses textos, em cerimônias de casamento religiosas, o oficiante, padre ou pastor, costuma dizer:

“Por que Deus não tirou a mulher da cabeça do homem, para que fosse dominada por ele; nem de suas mãos, para que não fosse manipulada por ele; nem dos seus pés, para que não fosse pisada por ele… Tirou-a de sua costela, de debaixo do seu braço, para que fosse amparada e protegida por ele, de perto do seu coração, para que fosse querida e amada por ele…”

Ontem à noite, ocorreu-me o seguinte…

E se Deus houvesse criado primeiro a mulher? Ela poderia ter sobrevivido sem o homem, porque possui todos os órgãos reprodutores: ovários, útero, etc. Deus só teria de criar um jeito de fertilizar o óvulo, fazendo uma regra do que ele, depois, pelo jeito fez com a Virgem Maria).

Mas e se Deus notasse que a mulher estava só, não conseguia fazer coisas simples no Jardim do Éden, como carpir, subir em árvores para colher frutos, trocar lâmpadas, matar baratas, etc. e, por isso, houvesse decidido lhe criar um companheiro. De onde, na mulher, Deus tiraria a matéria prima para fazer o homem? Também da costela? Ou de algum outro lugar pelo qual os homens são fascinados até hoje?

E o que diriam os escritores do Novo Testamento nessa hipótese? Que o homem deveria servir à mulher, ser (como se fosse) o seu servo, em troca de carinho e um pouco de amor (de vez em quando)?

Quase não dormi pensando no assunto…

(Para terminar, uma curiosidade adicional está no verso 23 do capítulo 2: por que mencionar que o homem deixará “seu pai e sua mãe” para se unir à sua mulher, quando Adão não tinha nem um nem outra?)

PS: Está é a minha octocentésima crônica neste blog.

Em São Paulo, 9 de Junho de 2013

A Revolta Protestante contra a Tentativa Católica de Sacramentar a Vida

[Este artigo é escrito para o leitor leigo em teologia… Os teólogos não devem esperar muita precisão teológica nele… Mas acredito que o foco central é correto e precisa ser enfatizado.]

1. A Tentativa de Sacramentar a Vida

Os termos “secular / profano” e “sagrado” não são muito usados hoje. Nem os termos “eterno” e “temporal”. Menos ainda os termos “leigo/laico” e “clerical”.

Os termos “civil” e “religioso” são mais usados talvez porque tenhamos nos acostumado a falar em casamento civil  (no cartório) e religioso (na igreja).

Durante o período medieval, e, portanto, antes da Reforma Protestante, a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana), tentou sacralizar, ou sacramentar, o mundo secular / profano, a afirmar a ascendência do eterno sobre o temporal, e a postular a autoridade clerical (papa, cardeais, arcebispos, bispos, padres), supostamente ligada ao eterno, sobre os leigos (o resto do povo) até mesmo sobre as autoridades ditas temporais (reis, imperadores, príncipes, etc.). Muito rei foi destituído de seu poder pelo papa durante esse período. O poder de excomungar (barrar da comunhão, isto é da eucaristia) era temido pelos leigos.

Nesse processo a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana) criou uma série de sacramentos — sete, na verdade, número cabalístico que combina não só com os sete pecados capitais e as sete virtudes cardeais, mas também com os sete dias da semana. São eles: batismo, confirmação (crisma), comunhão (eucaristia), reconciliação (confissão e penitência), unção dos enfermos (incluindo a extrema unção dos que estão para morrer), casamento, e ordenação. Os dois últimos são mutuamente exclusivos: quem casa não pode ser ordenado padre, e quem é ordenado não pode se casar (doutrina do chamado celibato clerical).

Os sacramentos cobrem a vida toda de um indivíduo, do nascimento (batismo — que precisa ser confirmado quando a pessoa atinge idade da razão) até a morte (extrema unção), passando por fases importantes, como o casamento e as doenças sérias. Além disso há dois sacramentos que são tipicamente ligados à igreja: a confissão / penitência e a comunhão. Os dois são vinculados um ao outro: para participar da comunhão (eucaristia) é preciso antes confessar os pecados e cumprir a penitência, sem a qual não haverá o perdão que dá acesso à santa ceia.

Com esse mecanismo dos sacramentos a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana) amarrou as pessoas a ela, do nascimento à morte, e passou a ter controle total da vida de seus seguidores. Até os pensamentos mais íntimos, se possivelmente pecaminosos, precisavam ser confessados ao padre. E o católico sabe que o padre sabe o que ele pensou ou, tendo pensado, fez, depois.

Com esse mecanismo dos sacramentos a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana) se fez mediadora da relação do fiel ou do crente com Deus. Para chegar a Deus ele precisa passar pela igreja, com seus sacerdotes e seus santos.

Antes de falar na Reforma Protestante, é interessante dizer uma palavra mais sobre os dois últimos sacramentos, os que são mutuamente exclusivos: casamento e ordenação.

Segundo a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana), esses dois sacramentos de certo modo gravam em quem os recebe uma marca irremovível (chamada de character indelebilis, em Latim). Isso quer dizer, no caso da ordenação, que uma vez ordenado, sempre ordenado — não há como se desordenar. Da mesma forma, no caso do casamento (embora a igreja raramente fale em character indelebilis aqui), uma vez casado, sempre casado — a menos que um dos dois morra. (Não é fácil fugir do injunção bíblica “até que a morte os separe” — a morte, portanto, separa o casal. E separa para sempre, porque no céu não haverá casamento. Algumas igrejas não católicas, como a Igreja dos Santos dos Últimos Dias, os chamados mórmons, vão além dos católicos aqui: acreditam no casamento eterno, para além da morte). Por isso, a Igreja Cristã Ocidental (Católica Romana) nunca admitiu o divórcio. Duas pessoas que se casam só podem se descasar se o casamento for declarado nulo — por alguma razão relevante. (Houve época em que uma boa oferta para a igreja muitas vezes era considerada razão relevante).

2. A Revolta Protestante

A Reforma Protestante acabou com (quase) tudo isso.

De pronto, cinco dos sacramentos foram simplesmente eliminados: confirmação, confissão  /penitência, unção dos enfermos, casamento e ordenação. Ficaram apenas o batismo e a eucaristia (chamada, na prática, de santa ceia, ou ceia do Senhor). Houve reformador que queria acabar com os sete, mas de alguma forma o batismo e a eucaristia permaneceram.

Não vou discutir todos os cinco ex-sacramentos: só o casamento, porque é o único que me afeta mais de perto — a mim e a vários amigos.

A Reforma Protestante, ao “dessacramentar” o casamento, declarou o casamento uma questão secular, não sagrada; civil, não religiosa. Não sendo o casamento um sacramento, não deixa marca irremovível nenhuma: pode ser dissolvido. E, uma vez dissolvido, nada impede que os ex-cônjuges possam se casar de novo. (Há uns textos bíblicos que a gente precisa tirar do caminho para defender essa tese, mas não é nada que um bom exegeta-hermeneuta não possa fazer com certa facilidade. A interpretação literal da Bíblia, como a própria Igreja Católica nos ensinou, é coisa de simplórios: vale o sensus plenior).

As Igrejas Protestantes, por conseguinte, não fazem casamento de ninguém: apenas pedem a Deus uma bênção especial para o casal que, normalmente antes, se casou segundo as leis da sociedade secular. (É recente a prática do casamento religioso com efeito civil: uma tentativa de simplificar as coisas do ponto de vista prático, sem nenhuma implicação teológica).

O casamento, assim, se torna um contrato de união civil que pode, ou não, ser acompanhado de uma cerimônia religiosa — mas ela não é necessária, do ponto de vista das Igrejas Protestantes. Durante a celebração do casamento civil ou durante a cerimônia religiosa os “casantes” podem se prometer várias coisas: que vão se amar para sempre, que vão ser fiéis um ao outro, que vão cuidar um do outro na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na juventude e na velhice, na prosperidade e na pobreza, etc. Algumas dessas promessas são “cumpríveis”, outras, não necessariamente — e às vezes não são nada fáceis de cumprir. A promessa de amar alguém para sempre é muito difícil de ser cumprida, talvez impossível, porque o amor é um sentimento sobre que não temos total controle — se é que temos algum. (Houve gente que, por ser incapaz de resistir a ele, desistiu de muito mais do que um simples casamento por causa dele: desistiu do trono inglês, por exemplo).

É bom que os casantes se façam promessas desse tipo, com a intenção de cumpri-las, porque casamento (mesmo que não indissolúvel) é coisa séria: não é algo em que se deva engajar de forma frívola, pensando que, se não der certo, a gente se separa e arruma outro(a) em seguida. Mas se o relacionamento chegar a um ponto em que um dos cônjuges concluir (raramente são os dois em uníssono) que não dá mais para cumprir as promessas, a maior parte das Igrejas Protestantes admite, depois de alguma tentativa de aconselhamento, que se separem, mediante o divórcio, e que, depois de um tempo, se for o caso, se casem de novo com outras pessoas, não se negando sequer a pedir a bênção divina sobre o novo casamento.

Isso é sensato e civilizado — e as Igrejas Protestantes históricas, em geral, com um ou outro escorregão, sempre agiram na direção da sensatez e da promoção daquilo que parecia ser civilizado. É por isso que eu sou protestante histórico. Insensato e civilizado é ficar casado, mesmo depois de o amor de um ou dos dois terminar, simplesmente porque se prometeu amar para sempre ou porque se acredita que o casamento é um sacramento que não pode ser tornado sem efeito.  Insensato e incivilizado — e imoral — é ficar casado com um(a) amando um(a) outro(a).

Para os católicos, porém, é preferível que o casal continue casado, mesmo se detestando; é preferível que alguém como Marcelo Mastroiani continuasse por anos casado com sua mulher, mesmo amando Catherine Deneuve, mesmo vivendo parte do tempo com ela, mesmo tendo filhos com ela… Indagado um dia, por que, diante desses fatos, ele não se separava da mulher e se casava com Deneuve, respondeu com franqueza: “Porque sou católico e o meu casamento é indissolúvel”.

Isso é sensato e civilizado? Os protestantes históricos, e qualquer pessoa sensata, acham que não…

Lastimavelmente, nos dias de hoje, alguns grupos fundamentalistas, dentro do Protestantismo, parte do Novo Evangelicalismo, estão voltando a uma visão medieval e católica do casamento como algo sagrado, como uma aliança sacramental indissolúvel que envolve não só um e outro, mas Deus como terceiro vértice de um triângulo… “Casados para Sempre”, é o bordão. Se um deixa de amar, quer se separar, pede o divórcio, este é negado pelo outro; se o que deixou de amar vai embora, pede o divórcio na Justiça, o outro luta contra; se o que saiu de casa passa a viver maritalmente com outra pessoa, os evangélicos fundamentalistas continuam a dizer que a única solução moral para a situação é se separar do segundo cônjuge e voltar para o primeiro, porque é o primeiro casamento que vale diante de Deus, o segundo sendo inválido porque o primeiro era indissolúvel aos olhos do terceiro vértice do triângulo…

Isso é sensato e civilizado? Há pessoas que, num segundo casamento, estão vivendo felizes, às vezes até com filhos, e são pressionados, para poder continuar na igreja dos evangélicos fundamentalistas, a abandonar o segundo cônjuge (considerado apenas um amante adulterino) e voltar para o primeiro…

Isso é sensato e civilizado? Os protestantes históricos acham que não. A maior parte dos brasileiros, exceto os evangélicos fundamentalistas (e alguns católicos mais ortodoxos), acha que não.

Os evangélicos fundamentalistas citam Paulo em sua primeira carta aos Coríntios. Paulo diz, em parte, mais ou menos o que eles estão dizendo hoje. Mas Paulo diz mais. Ele acredita, em primeiro lugar, que Jesus vai voltar logo, ainda durante a vida dele, e o mundo vai acabar. Ele diz que o tempo é curto, é preciso trabalhar, e o ideal é ficar solteiro como ele, para não precisar desperdiçar tempo com um cônjuge. Ele diz também que, se a pessoa não aguentar a ficar solteiro E a se manter casta em sua solteiridade, é melhor que se case — mas que se case com alguém cristão, e sabendo que não vai poder se separar. Há mais algumas nuances, mas no fundo é isso.

Será que a gente vê por aí muitos evangélicos fundamentalistas praticando celibato para trabalhar pela causa cristã? No way. Todos eles se casam. Deixam de se seguir a recomendação paulina, portanto.

Nos versículos Paulo joga muito com uma dialética que afirma, de vez em quando, que isso é ele falando, não o Senhor, mas que, em outras situações, é a determinação do Senhor… Mas em quantos lugares da Bíblia, quiçá do Novo Testamento, há determinações (sem a ressalva de que, no caso, é o apóstolo falando, não o Senhor), que hoje nenhum evangélico fundamentalista cumpre. A determinação de que a mulher use cabelo longo, que fique calada na igreja, que obedeça a seu marido… Quem leva isso a sério hoje em dia entre os evangélicos fundamentalistas, que estão cheios de pastoras, bispas e apóstolas falando na igreja e fora dela, na televisão, emperuadas, de cabelo curto, sem véu, fazendo de conta que a determinação bíblica para obedecer o marido não existe?

Se o Protestantismo tivesse uma autoridade central, um “papa”, que fizesse cumprir as doutrinas reformadas históricas, esses evangélicos fundamentalistas estariam todos excomungados há muito tempo. Não poderiam mais se chamar protestantes…

3. Para Concluir…

Para concluir esta seção: o casamento, para as Igrejas Protestantes históricas, é um contrato civil — não é um sacramento, isto é, não é algo sagrado. Deus pode abençoar, se os cônjuges o desejarem e ele assim houver por bem, mas a união se dá porque duas pessoas assim o desejam: não é Deus que une.

Admitir que todo mundo que está casado civilmente, ou, então, que pede a bênção de Deus para o seu casamento, está unido por Deus, levaria a conclusões totalmente totalmente inaceitáveis, entre elas a de que Deus de vez em quando comete umas barbeiragens que nós não temos outro recurso senão consertar através do divórcio. O casamento, ainda que na Igreja, de um casal cujo marido bate na mulher, violenta as filhas, mantém relacionamentos extraconjugais regulares, representaria sempre, e sem exceção, uma união estabelecida por Deus que a gente não pode dissolver sem descumprir a lei divina? E se a mulher, uma vez dissolvido, acha um companheiro bom, que a ajuda a cuidar dos filhos, estaria ela para sempre proibida de se casar com ele?

Isso seria sensato? Isso seria civilizado?

Repito: para os Protestantes históricos, o casamento é apenas uma união civil estável para a qual se pede a bênção de Deus.

Uma última palavra. Muito depende hoje, quando se discute o chamado “casamento homossexual”, do termo “casamento”. Tenho uma sugestão simples (até simplória).

Da mesma forma que o que um dia era chamado desquite passou a ser chamado de separação judicial, deveríamos chamar o que hoje é chamado de casamento civil de união civil estável (como, na prática, e mesmo em algumas leis, já é). O termo casamento fica reservado para o plano religioso, não secular.

Com essa medida, nada impede que se estenda aos homossexuais o direito de se unirem em uniões civis estáveis.

Se o desejarem, as várias igrejas podem regulamentar o casamento, como quiserem. As protestantes históricas vão provavelmente dizer que casamento é apenas uma cerimônia em que se pede a bênção divina para uma união civil estável já realizada e reconhecida aos olhos da lei. Outras, como a católica e as evangélicas fundamentalistas, podem dizer que o casamento é a colocação de um selo de validade permanente (ou até eterna) sobre a união civil estável, que, uma vez ganhando esse selo, se torna mais do que estável: se torna indissolúvel e, quiçá, eterna. E a igreja que quiser pedir a bênção de Deus sobre a união estável homossexual, transformando-a em casamento religioso, que o faça.

Que tal minha sugestão?

Em São Paulo, 27 de Fevereiro de 2013, levemente revisado em Salto, 6 de Abril de 2017

A Igreja como Comunidade Virtual dos Crentes (short)

Versão mais curta do artigo anterior, publicada na Revista Visão, da Catedral Evangélica de São Paulo (Primeira Igreja Presbiteriana Independente)

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Frequentamos a igreja, em regra, uma vez por semana, com vários objetivos: adorar a Deus, fortalecer a fé, aprender mais sobre a Bíblia, ter comunhão com os irmãos.

Vou me concentrar inicialmente na comunhão entre os irmãos.

A tecnologia atual nos permite ver a igreja como uma comunidade também virtual, sem limitações espaço-temporais. Nessa visão, a igreja (diferentemente do templo) deixa de ser um lugar físico que se frequenta uma vez por semana para se tornar a comunidade daqueles que comungam uma mesma fé e prática e consideram importante estar em comunhão uns com os outros.

A comunhão presencial que acontece na visita semanal ao templo é muito limitada: a igreja deveria estar presente na vida das crentes também nas horas que passam longe do templo. Na verdade, o tempo todo.

As tecnologias hoje disponíveis tornam isso possível.

Em seu livro The Church of Facebook Jesse Rice sugere que as tecnologias atuais estão abalando a ideia tradicional de comunidade. Hoje milhões de pessoas se conectam umas com as outras através das redes sociais, trocam informações, fazem amizades, cultivam relacionamentos, até mesmo se apaixonam, apoiam os que estão deprimidos, discutem, aprendem… As redes sociais nos permitem estar o tempo todo sintonizados com nossos amigos, acompanhando suas ações, compartilhando suas alegrias e tristezas… Elas tornam possível um nível de comunhão entre amigos inimaginável até há pouco tempo…

Irmãos na fé são mais do que amigos, não é mesmo?

Se Martin Buber estava minimamente certo ao dizer que Deus não está aqui ou ali, mas entre um e outro, a comunhão com o próximo é a principal forma de nos aproximarmos de Deus.

É possível também agregar ao virtual os demais objetivos da frequência ao templo, como, por exemplo, a adoração a Deus. Hoje, na Primeira Igreja, já temos irmãos que nunca vemos presencialmente: os que de longe assistem aos nossos cultos pela Internet. Eles poderiam se integrar a essa comunidade virtual de comunhão e, também, de adoração. Os muito idosos, os doentes, os presos ao leito ou à casa, poderiam também se sentir visitados diariamente pela presença envolvente da igreja…

Também a educação cristã se beneficiaria dessa igreja virtual. Numa comunidade assim poderíamos aprender, não tanto pela via do ensino e da instrução, mas, sim, pelo compartilhamento de ideias, do diálogo que nos faz crescer e propicia o nosso desenvolvimento como seres humanos, da discussão que aprofunda o nosso entendimento, porque nos permite compreender melhor o mundo, a vida, a nós mesmos, quiçá a Deus.

A igreja, assim redefinida, seria igualmente um ambiente de crescimento, se não na fé, em si, pelo menos na sua compreensão, na sua articulação com a vida diária, nas suas implicações para a conduta no trabalho, no lazer, na vida doméstica.

Quem sabe a criação, para a Primeira Igreja, de uma comunidade virtual seria um primeiro passo para o surgimento de uma igreja que transcenda os limites do centro histórico da cidade, e mesmo, pioneiramente, os da cidade em si, e se torne um ambiente amplo de comunhão, adoração e formação, 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Para que isso aconteça, não basta criar uma comunidade virtual num site da Internet. É preciso ver a participação no site como parte integrante de nossa vida cristã e ver a coordenação do site como um ministério da igreja — ou como uma outra plataforma em que os atuais ministérios podem desenvolver o seu trabalho. O acolhimento de novos membros, de visitantes, dos que assistem ao culto pela Internet, poderia ser feito também nesse espaço virtual. Ali também poderiam ser divulgadas notícias e informações acerca de eventos que acontecerão na igreja e fora dela, aniversários, casamentos, doenças, falecimentos, trabalhos dos diversos ministérios, sociedades e fundações da igreja, etc.

Por último, mas não menos importante, a comunidade virtual poderia ser um posto avançado de evangelização que leva em conta o fato de que as pessoas, hoje, passam cada vez mais tempo no espaço virtual.

(*) Eduardo Chaves, professor aposentado de Filosofia da UNICAMP, é, com sua mulher Paloma Machado, membro da Primeira Igreja.

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Escrito em 6 de Dezembro de 2011 e publicado aqui em 28 de Dezembro de 2011

A Igreja como Comunidade Virtual dos Crentes

Antes de entrar no assunto central deste artigo e começar a falar na igreja como comunidade virtual, vou falar rapidamente sobre a escola e a aprendizagem. Esse incursão na filosofia da educação servirá de introdução ao tema.

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A escola é uma instituição social que todos conhecemos, no mínimo por termos passado por ela. Hoje em dia as pessoas são obrigadas a frequentar uma escola durante um determinado tempo (no Brasil, durante nove anos, período correspondente ao chamado Ensino Fundamental), na infância e adolescência (dos seis aos quatorze anos). Durante esse período de escolarização obrigatória, a frequência à escola é intensiva: pelo menos quatro a seis horas por dia, cinco dias por semana, ao longo de pelo menos duzentos dias por ano. Diversos instrumentos legais proíbem que crianças e adolescentes nessa faixa etária trabalhem, para que possam dedicar à escola sua atenção integral. No Brasil, várias iniciativas buscam fazer com que a frequência à escola obrigatória se dê em período integral (o dia inteiro) — e também se cogita de aumentar em dez por cento o número de dias letivos.

A obrigatoriedade da frequência à escola nessa faixa etária é hoje exigida em virtualmente todos os países desenvolvidos porque se concluiu, em algum momento, que o confinamento que ela impõe é propício para que as pessoas aprendam o mínimo indispensável para viver suas vidas (no plano pessoal, profissional e social) com certo nível de autonomia e competência. Na verdade, mesmo sem obrigatoriedade, alguns optam por continuar a frequentar a escola depois dos quatorze anos, por bem mais tempo (fazendo nela o Ensino Médio, o Ensino Superior, a Pós-Graduação, etc.).

O principal objetivo da frequência à escola é a construção da aprendizagem. No entanto, sabe-se que as pessoas podem e devem aprender, e de fato aprendem, ao longo de toda a vida, desde o nascimento (talvez até mesmo no útero materno) até a morte. Por causa disso, instituições como a UNESCO enfatizam hoje a importância do que chamam de “aprendizagem ao longo da vida toda” (lifelong learning) e “aprendizagem em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere learning“). Na verdade, reconhece-se que a maior parte das coisas importantes que aprendemos, nós as aprendemos fora da escola: no lar, na comunidade, na igreja, no trabalho, nos momentos de lazer. Hoje em dia, dada a evolução das tecnologias de informação e comunicação, a educação a distância, em que a aprendizagem é mediada pela tecnologia, está se tornando cada vez mais difundida. Por meio da tecnologia, podemos aprender o tempo todo, interagindo com outras pessoas (mesmo que elas estejam fisicamente distantes) e acedendo às informações de que precisamos para fazer o que queremos.

As propostas atuais de reinvenção da escola partem do pressuposto que a escola é muito mais do que um lugar físico que se frequenta por um tempo. A escola, reinventada, seria um ambiente de permanente e constante aprendizagem, que englobaria tanto o plano presencial como o plano virtual (neste caso, mediado pela tecnologia).

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A igreja, como a escola, é uma instituição social. Nenhuma lei nos obriga a frequentar uma igreja por um determinado número de anos numa determinada fase de nossa vida. Mesmo assim, sem obrigatoriedade, muitos o fazem – pelo menos por umas duas horas, um dia por semana, em regra aos domingos, durante a vida toda.

O principal objetivo da frequência à escola é a aprendizagem. E o principal objetivo da frequência à igreja, qual é? Sem pretender elaborar uma listagem exaustiva, creio que podemos dizer que, neste caso, há vários objetivos: adoração a Deus, formação cristã, fortalecimento da fé, comunhão com os irmãos, etc.

Vou deixar de lado, por um momento, os três primeiros objetivos citados para me concentrar no quarto: comunhão entre os irmãos.

Se pensarmos sobre a igreja em termos análogos àqueles em que se vem pensando sobre a escola, poderíamos cogitar da reinvenção da igreja. Nessa visão, a igreja (diferentemente do templo) deixa de ser um lugar físico que se frequenta durante duas horas aos domingos e passa a ser a comunidade dos crentes, isto é, daqueles que comungam os aspectos centrais de uma determinada fé e prática e consideram importante viver em comunhão uns com os outros. Talvez seja mais ou menos isso que os teólogos de antigamente entendiam pela expressão “igreja invisível” (ecclesia invisibilis). Nessa linha, a comunhão que acontece numa visita semanal ao templo é muito limitada: a igreja (devidamente reinventada) precisaria estar presente na vida das pessoas durante a maior parte de suas vidas — isto é, também nas horas que elas passam longe do templo. Enfim, o tempo todo.

Isso quer dizer que, levando a ideia adiante, precisamos de algo não só semelhante a “lifelong churching” — isso, até certo ponto, já existe hoje — mas semelhante a comunhão em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere, communion“). Isso hoje pode ser feito com o apoio das mesmas tecnologias que permitem a reinvenção da escola. As tecnologias de informação e comunicação hoje disponíveis viabilizam essa ideia.

Em seu livro The Church of Facebook: How the Hyperconnected are Redefining Community, Jesse Rice, da Igreja Presbiteriana de Menlo Park, CA, no coração do Vale do Silício, sugere que as tecnologias que revolucionaram a forma pela qual nos relacionamos uns com os outros e acedemos às informações de que precisamos para viver nossas vidas estão também provocando um abalo sísmico na nossa ideia de comunidade. Cada dia que passa milhões de pessoas se conectam umas com as outras através das redes sociais, trocam informações, fazem amizades, cultivam esses relacionamentos, até mesmo se apaixonam, apoiam os que estão deprimidos, aprendem… As redes sociais nos permitem estar o tempo todo sintonizados com nossos amigos, acompanhar suas ações, compartilhar suas alegrias e tristezas… Elas tornam possível um nível de comunhão entre amigos inimaginável até pouco tempo…

Irmãos na fé são mais do que amigos, não são?

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Se Martin Buber estava minimamente certo ao dizer que Deus não está aqui ou ali, mas entre um e outro, a comunhão com o próximo é a principal forma de nos aproximarmos de Deus.

Na verdade, até aqui encarei apenas a função “comunhão com os irmãos” da frequência à igreja. Mas é possível agregar também as demais funções, como, por exemplo, a adoração a Deus. Hoje, na Catedral Evangélica, já temos irmãos que nunca vemos presencialmente: os que de longe assistem aos nossos cultos pela Internet. Eles poderiam se integrar a essa igreja reinventada, a essa comunidade virtual de comunhão e, também, de adoração. Os muito idosos, os doentes, os presos ao leito ou à casa, poderiam também se sentir visitados diariamente pela presença envolvente da igreja…

Como estou convicto de que (a) a educação é a principal forma de desenvolvimento humano; (b) a educação é fruto da aprendizagem, muito mais do que do ensino ou da instrução; e (c) a aprendizagem é, eminentemente, colaborativa, e, portanto, tem lugar na interação, no relacionamento, na comunhão… — como estou convicto disso sou forçado a reconhecer que a igreja, assim reinventada como comunidade virtual, teria, no fundo, também uma função fundamentalmente educativa (formativa). Mas ela seria educativa, não tanto pela via do ensino e da instrução, mas, sim, pela via do compartilhamento de ideias e até mesmo de dúvidas, do diálogo que nos faz crescer e propicia o nosso desenvolvimento como seres humanos, da discussão e do embate de ideias que aprofundam o nosso entendimento, porque nos permitem compreender melhor o mundo, a vida, a nós mesmos, quiçá a Deus.

Creio que uma das frases mais felizes de Paulo Freire, o mais conhecido dos educadores brasileiros, é: “Ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros, em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Pedagogia do Oprimido).

A igreja, assim redefinida e virtualizada, seria um ambiente também de crescimento, se não na fé, em si, pelo menos na sua compreensão, na sua articulação com a vida diária, nas suas implicações para a conduta no trabalho, no lazer, na vida doméstica.

Quem sabe a criação, para a Catedral Evangélica, de uma comunidade virtual (parecida com um site de relacionamento, como FaceBook) seria um primeiro passo para a criação de uma igreja que transcenda os limites do centro histórico da cidade, e mesmo da cidade em si, e se torne um ambiente de comunhão, adoração e formação, 24/7: 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Para que isso aconteça, não basta criar uma comunidade virtual num site da Internet. É preciso ver a participação no site como parte integrante de nossa vida cristã e ver a coordenação (ou animação) do site como um ministério da igreja — ou como uma outra plataforma (além da presencial) em que os atuais ministérios podem desenvolver o seu trabalho. O acolhimento de novos membros, de visitantes, dos que assistem ao culto pela Internet, poderia ser feito também nesse espaço virtual. Ali também poderiam ser divulgadas notícias e informações acerca de: eventos que acontecerão na própria igreja e fora dela (neste caso, palestras, concertos, cursos, etc.); aniversários, casamentos, doenças, falecimentos; trabalhos dos diversos ministérios, sociedades e fundações da igreja; campanhas (como a de assinatura de O Estandarte, recolhimento de mantimentos ou agasalhos, etc.); sugestão e venda de livros; etc. Além disso, pedidos de oração poderiam ser feitos ali, orientação e apoio pastoral também poderiam ser em parte fornecidos ali, com respostas ou orientações rápidas sobre questões levantadas pelos membros acerca de doutrina, exegese, hermenêutica, conduta, etc.

Por último, mas não menos importante, a comunidade virtual poderia ser um posto avançado de evangelização que leva em conta o fato de que as pessoas, hoje, passam cada vez mais tempo conectadas ao virtual.

(*) Eduardo Chaves, é Bacharel e Mestre em Teologia pelo Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, EUA, e Doutor em Filosofia pela University of Pittsburgh, da mesma cidade. Ele é professor aposentado da UNICAMP, onde lecionou filosofia da educação e filosofia política durante quase 33 anos, de 1974 a 2007. Ao mudar para São Paulo, em 2008, passou a frequentar a Primeira Igreja, da qual é membro desde 2010, com sua mulher Paloma Chaves.

Escrito em 14 de Novembro de 2011 e transcrito aqui em 28 de Dezembro de 2011.