São todas as culturas iguais?

No artigo anterior fiz umas referências meio desairosas a alguns traços culturais (menos importantes) da cultura chinesa que tive o desprazer de presenciar ontem — em especial na hora de comer. Isso me fez pensar mais uma vez na questão a que sempre volto: o relativismo cultural.

Pretendem os relativistas que não existem valores universais (isto é, universalmente válidos), irrespectivamente do contexto. Valores, para eles, são definidos dentro de um contexto cultural e, portanto, não há como dizer (de um ponto arquimédico supra-cultural) que uma cultura é superior a outra (i.e., melhor do que a outra).

Eu sempre combati esse relativismo. Nunca defendi a tese de que tudo numa cultura é melhor do que na outra. O que defendo é que é possível dizer, em relação a determinados traços culturais, que uns são melhores do que os outros, e é possível dizer isso porque há valores que são inegavelmente universais.

Estou disposto a admitir que regras sobre como interagir com os alimentos não sejam valores, não passando de simples costumes (regras de etiqueta) com os quais não se deve perder muito tempo. Se uns se recusam a trazer pés de galinha fritos à mesa, ou até mesmo a servir outras partes da galinha que seja meio difícil comer sem segurá-las com a mão, e outros se sentem bem e à vontade para, sem o menor pudor, chupar os pés das penosas em público, por que dizer que um costume é melhor do que outro?

Minha resposta está no fato de que o hábito do relativismo (mesmo nos costumes) deve ser desincentivado — e isso porque, por mais inócuo que possa parecer um costume, ele traz, embutido em si, um certo valor… Andar pelo meio do trem com um pé de galinha frito na boca e com as mãos livres reflete uma falta de sensibilidade pelo menos estética que quase causa dor física.

Lembro-me, no contexto, de que, mais de uma vez, já pensei sobre o seguinte. Quase toda cultura faz uma distinção (relativamente clara, nos casos limites) entre o que pode ou deve ser feito em público e o que deve ser feito em privado. Por que é que as funções excretoras são, via de regra, realizadas em privado, e, no entanto, a sua contrapartida natural, as funções ingestoras de alimento, são em geral prestigiadas socialmente, realizadas em público e, boa parte das vezes, em companhia?

A pergunta merece reflexão. Se comemos em público e em companhia, sem o menor pudor, mesmo sendo o ato de ingerir alimentos por vezes deselegante (como no caso dos malditos pés de galinha fritos), por que não defecamos e urinamos em público e em companhia?

Encontro duas respostas possíveis a essa questão.

Primeiro, há a questão do fato de que as funções secretoras são executadas por órgãos que ficam muito próximos dos órgãos sexuais que, em geral, é tabu exibir e, mais ainda, utilizar em público. É difícil imaginar como defecar ou urinar em público ou em companhia sem exibir as "partes pudendas" de que fala nosso Direito (e, assim, cometer "atentado ao pudor").

Segundo, há a questão do cheiro… Fezes e urina em geral têm um odor considerado universalmente como desagradável (embora, a julgar pelos contos eróticos que de vez em quando se encontram na Internet, haja quem goste) — e, assim, o que é objetável no ato de defecar e urinar em público, ou em companhia, é o mal-cheiro que acompanha o ato (fato que contamina também a inofensiva flatulência). 

Estão vendo como mesmo os costumes mais elementares no fundo têm um fundo de valor? No caso, um valor estético — um cheiro desgradável, mais corretamente, sem eufemismos, um fedor.

Na verdade, minha sensibilidade estética está tão aguçada atualmente que estaria disposto a tornar o ato de ingestão de alimentos um ato privado (e não o oposto, isto é, a tornar os atos excretores públicos). Tenho prestado atenção às pessoas comendo, e minha estética — vale dizer, meus valores estéticos — fica constantemente ofendida! Ver um americano gordo, segurando-o com as duas mãos, atacar um Big Mac no aeroporto de Chicago revolta o meu estômago tanto quanto o cara chupando despudoradamente os pezinhos da galinha (chupar os dedos do pé da mulher amada é corretamente considerado um fetiche — algo desusado, quase tanto como a chamada "chuva dourada"). E o ataque ao Big Mac não seria menos ofensivo, do ponto de vista dos valores estéticos, se estivesse sendo perpetrado pela segunda Martha Rocha — a atual Miss Brasil, a (pela segunda vez) injustiçada segunda colocada no concurso de Miss Universo. (Por ela ter sido injustiçada, não menciono aqui a Miss Japão, que ganhou o concurso).

Por falar no concurso de Miss Universo, acho que há critérios objetivos que nos permitem dizer que a brasileira foi injustiçada: não é simples bairrismo ou chauvinismo — até porque eu, em geral, sou, em regra, anti-bairrista e chauvinista, tendendo a acreditar que os bairristas e chauvinistas estão em geral errados (embora não neste caso).

Mas estou me afastando do tema — e queria voltar a ele.

Hoje o relativismo cultural está disfarçado de roupagens multiculturalistas. O multiculturalismo é relativista no sentido de que propõe a tese de que todas as culturas são igualmente válidas — a cultura ocidental feminista e a cultura africana que remove o clitóris das meninas púberes (clitoridectomia) e costura sua vagina, só deixando um espacinho para a urina e o sangue menstrual, para ela não ser tentada a transar antes que seu marido a desvirgine, rompendo a carne que foi costurada.

Mas o multiculturalismo tem ido além: tem sugerido (quando não dito explicitamente) que qualquer cultura, por mais primitiva (eu não hesito em usar esse termo, que os politicamente corretos procuram nos proibir de usar) que seja, é melhor do que a cultura ocidental. Só isso pode justificar o Prêmio Nobel a Rigoberta Manchú — e o fato de que algumas universidades americanas que, antigamente, eram de qualidade, incluam a dita cuja no currículo de literatura universal e deixem William Sheakespeare de fora (porque, afinal de contas, ele era ocidental — e, além disso, homem, branco e, pelo que consta, heterossexual — enquanto a Rigoberta era guatemalteca (que, segundo os PCs, não a qualifica como ocidental — o Terceiro Mundo, para eles, ainda que nas Américas, não é Ocidente). Além de guatemalteca, a Rigoberta era pelo menos mulher e marronzinha (indígena latinoamericano não é pele vermelha para os americanos politicamente corretos: é pele marrom).

Em outras palavras: o multiculturalismo vai além do relativismo cultural e procura mostrar que a cultura ocidental (que tem os seus problemas, ninguém nega) é inferior à cultura de qualquer povo primitivo que se encontre ao sul do Equador.

Vejam, a respeito, o Open-Ed do Ayn Rand Institute, com o qual estou de pleno acordo:

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Op-Ed from the Ayn Rand Institute

Multiculturalism’s War on Education

By Elan Journo

Back to school nowadays means back to classrooms, lessons and textbooks permeated by multiculturalism and its championing of "diversity." Many parents and teachers regard multiculturalism as an indispensable educational supplement, a salutary influence that &q
uot;enriches" the curriculum. But is it?

With the world’s continents bridged by the Internet and global commerce, multiculturalism claims to offer a real value: a cosmopolitan, rather than provincial, understanding of the world beyond the student’s immediate surroundings. But it is a peculiar kind of "broadening." Multiculturalists would rather have students admire the primitive patterns of Navajo blankets, say, than learn why Islam’s medieval golden age of scientific progress was replaced by fervent piety and centuries of stagnation.

Leaf through a school textbook and you’ll find that there is a definite pattern behind multiculturalism’s reshaping of the curriculum. What multiculturalists seek is not the goal they advertise, but something else entirely. Consider, for instance, the teaching of history.

One text acclaims the inhabitants of West Africa in pre-Columbian times for having prosperous economies and for establishing a university in Timbuktu; but it ignores their brutal trade in slaves and the proliferation of far more consequential institutions of learning in Paris, Oxford and elsewhere in Europe. Some books routinely lionize the architecture of the Aztecs, but purposely overlook or underplay the fact that they practiced human sacrifices. A few textbooks seek to portray Islam as peaceful in part by presenting the concept of "jihad" ("sacred war") to mean an internal struggle to surmount temptation and evil, while playing down Islam’s actual wars of religious conquest.

What these textbooks reveal is a concerted effort to portray the most backward, impoverished and murderous cultures as advanced, prosperous and life-enhancing. Multiculturalism’s goal is not to teach about other cultures, but to promote–by means of distortions and half-truths–the notion that non-Western cultures are as good as, if not better than, Western culture. Far from "broadening" the curriculum, what multiculturalism seeks is to diminish the value of Western culture in the minds of students. But, given all the facts, the objective superiority of Western culture is apparent, so multiculturalists must artificially elevate other cultures and depreciate the West.

If students were to learn the truth of the hardscrabble life of primitive farming in, say, India, they would recognize that subsistence living is far inferior to life on any mechanized farm in Kansas, which demands so little manpower, yet yields so much. An informed, rational student would not swallow the "politically correct" conclusions he is fed by multiculturalism. If he were given the actual facts, he could recognize that where men are politically free, as in the West, they can prosper economically; that science and technology are superior to superstition; that man’s life is far longer, happier and safer in the West today than in any other culture in history.

The ideals, achievements and history of Western culture in general–and of America in particular–are therefore purposely given short-shrift by multiculturalism. That the Industrial Revolution and the Information Age were born and flourished in Western nations; that the preponderance of Nobel prizes in science have been awarded to people in the West–such facts, if they are noted, are passed over with little elaboration.

The "history" that students do learn is rewritten to fit multiculturalism’s agenda. Consider the birth of the United States. Some texts would have children believe the baseless claim that America’s Founders modeled the Constitution on a confederation of Indian tribes. This is part of a wider drive to portray the United States as a product of the "convergence" of three traditions–native Indian, African and European. But the American republic, with an elected government limited by individual rights, was born not of stone-age peoples, but primarily of the European Enlightenment. It is a product of the ideas of thinkers like John Locke, a British philosopher, and his intellectual heirs in colonial America, such as Thomas Jefferson. 

It is a gross misconception to view multiculturalism as an effort to enrich education. By reshaping the curriculum, the purveyors of "diversity" in the classroom calculatedly seek to prevent students from grasping the objective value to human life of Western culture–a culture whose magnificent achievements have brought man from mud huts to moon landings. 

Multiculturalism is no boon to education, but an agent of anti-Western ideology.

Elan Journo is a junior fellow at the Ayn Rand Institute (http://www.aynrand.org/) in Irvine, Calif. The Institute promotes Objectivism, the philosophy of Ayn Rand–author of "Atlas Shrugged" and "The Fountainhead." Contact the writer at media@aynrand.org.

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Comecei com pés de galinha frita e acabei chegando em assuntos que são da maior importância. Mas uma coisa leva à outra.

Em Hualien, TW, 25 de Agosto de 2007

Hualien, TW

[De manhã, ainda em Taipei]

Hoje, sábado, vou a Hualien, na costa leste de Taiwan. O dia é livre e o local aparentemente é lindo. Pelo que consta, foi o lugar que os portugueses viram primeiro quando chegaram a esta ilha, e por isso a designaram Formosa. Vou de trem — leva quase três horas, mas optei por esse meio porque o trajeto, segundo dizem, também é bonito. Se for realmente o que dizem, fico lá hoje e volto só domingo à noitinha. Felizmente, tenho um "personal tour guide", anglofalante, que me acompanha.

O dia está quente e chuvoso. Ontem, quando saí do aeroporto onde o ar é climatizado, levei um choque — e eram 21h. O site MSN prevê que a temperatura aqui hoje chegue a 31 graus Celsius. Mas tenho a impressão de que ontem estava acima disso às 9h da noite. Talvez a chuva faça a temperatura cair um pouco.

 [No começo da noite, em Hualien]

Como previsto, vim para cá. A viagem de trem foi agradável. O trem foi pontualíssimo, era confortável, nossos lugares estavam guardados — não embarcamos na estação principal, mas numa estação perto do hotel. Ao logo do percurso, vi a paisagem ir mudando. O trem saiu de Taipei e foi na direção de Keelung City, no norte (Keelung City é o principal porto no norte do país). Antes de chegar à cidade, porém, o trem virou para o leste e começou a passar por túnel atrás de túnel, por causa das montanhas — com picos que ultrapassam os 3.500 metros. Depois de quase uma hora, chegamos à costa. Por um bom tempo não havia praia: só havia rochedos de diferentes tamanhos. Depois começaram aparecer algumas praias, mas feitas, quando comparadas com as nossas. A areia parecia um cascalho e era bastante escura.

Mais interessante do que as praias foi o fato de que o leito de quase todos os rios estava seco: só mostrava um mundaréu de pedra. Como há pedra por aqui!!! A água só vem na estação das chuvas ou quando há um tufão. Houve um violento tufão há 15 dias, mas, segundo o dia, a água que ele trouxe já se esgotou, correndo para o mar, ali do lado.

Além do leito seco dos rios, achei interessante ver os arrozais nos alagados — exatamente como a gente vêm em filmes sobre a China, inclusive com os trabalhadores com aqueles chapéus meios em cone…

Outra coisa interessante. No trem, que é um trem bastante bom, lugares numerados, ninguém em pé, poltronas estofadas, ar condicionado, etc., havia várias famílias jovens, com crianças pequenas, vindo para cá. Prestei atenção às que estavam mais perto de mim. Fiquei chocado com os hábitos alimentícios. Várias pessoas tinham um saco plástico com pés de frango fritos e iam comendo (na realidade, chupando) os pés de frango com uma voracidade incrível. Às vezes deixavam o pé do frango na boca e, com as mãos faziam outra coisa. Conforme limpavam (literalmente) os ossinhos, iam cuspindo os ossos que ficavam na boca num jornal no colo. Não foi um, nem dois, que eu vi. Foram vários. As famílias se conheciam, então um vinha filar um pé de frango do outro. Davam para as crianças, que faziam uma sujeira com os ditos cujos (como se pode facilmente imaginar).

Já que estou falando de comida, fui com o meu personal tour guide almoçar numr restaurante chinês, de bastante boa aparência. Aqui em Hualien, além de um McDonald’s, não parece haver restaurantes que não sejam chineses, mais especificamente cantoneses. Vem aquele monte de pratos, a maior parte dos quais eu detesto. E vêm os bendidos palitinhos para a gente comer. Eu os domino razoavelmente bem, mas quando vi um camarão enorme (quase dez centímetros), com cabeça, casca, rabo, barbichas e tudo, fiquei imaginando como é que iria atacar o bicho com os palitinhos. Observei o meu guia. Ele pegou o camarão inteiro com os palitinhos, levou à boca, deu uma dentada, cortou o camarão com casca em dois, e, em seguida, literalmente chupou cada uma das metades — o que veio para a boca ele traçou. Imagino que até os olhinhos e o cérebro do camarão (supondo que camarão tenha cérebro) ele comeu sem a menor discriminação. Eu pensei comigo mesmo: aqui cheguei ao meu limite. Pedi a ele que solicitasse à garçonete um garfo e uma faca — que ela trouxe. Cuidadosamente retirei a casca, removi a cabeça, o rabo, as barbichas, e comi o resto — que, por sinal, estava delicioso. Acho que foi o maior camarão que comi na minha vida. Quase um almoço em si só (exagero, ma non troppo).

Resolvi ficar aqui hoje à noite. O hotel é simples. Chama-se Marshall. Mas tem Internet. Felizmente. Resolvi não jantar. Não conseguiria gerenciar mais uma lauta refeição de dez a doze pratos de cozinha cantonesa. Assim faço um regiminho. E aproveito para descansar, porque o sono e o cansaço estão chegando fortes.

[Perto da meia-noite]

Acordei há questão de minutos, tomei os meus remédios da hora do almoço (aqui é tudo invertido: os remédios do café da manhã tomo no jantar; os do almoço, tomo na hora de ir dormir; e os da hora do jantar tomo no café da manhã).

A Internet foi-se. Ao acordar de minha soneca, às 23h (leva tempo para a gente conseguir dormir uma noite inteira de uma vez só), a Internet tinha sumido. Gone. Eu ainda tinha acesso à rede local, mas esta não estava conectada à Internet. Ficava aparecendo aquele maldito computadorzinho com um triângulo com um ponto de exclamação amarelo, indicando "conexão limitada" — que é uma expressão errada: com a Internet não tinha conexão nenhuma: de que me interessa estar ligado à rede local do hotel, se esta não está conectada à Internet???  

Liguei para a recepção, quem atendeu falava bem Inglês, disse que mandaria um técnico. Este veio ao quarto, não falava nada de Inglês, e só tentou abrir o Internet Explorer. Não conseguiu, fez um gesto de quem não sabia o que fazer, e saiu. Pior de tudo: fedia. Ficou o cheiro dele no ar. Dali a pouco voltaram o recepcionista de plantão (que foi quem atendeu o meu telefonema) com o fedorento técnico. Eu disse ao recepcionista o que estava acontecendo e ele me disse que então o problema talvez fosse no modem (estava usando conexão com fio) ou no roteador. Pelo menos parecia saber isso. Disse a ele para ligar e desligar o modem e o roteador. Disse que não podia, porque a gerência tranca a sala a chave à noite… Disse-me, também, que havia havido uma tempestade (eu não vi nem ouvi) e que um raio devia ter alcançado o modem ou o roteador. Disse-me, por fim, que achava que a Internet Sem Fio estava funcionando no lobby. Vim para cá, com camiseta de dormir, etc., e de fato está funcionando. por isso complemento este artigo aqui no lobby, depois da meia-noite. Estou sem sono. Vou ver se compro uma cerveja no bar para matar a fome e dar um pouco de sono…

Hoje visitei uma fundação impressionante. Tzu-Chi Foundation, criada por uma monja budista há uns 45 anos. Fiquei de queixo caído. Têm subsidiárias em 39 países e atuam com voluntários em quase todo o globo, inclusive no Brasil. Vejam o site dela em http://www.tzuchi.org.tw/ — o site está disponível em Inglês e Espanhol, além de Chinês. Aqui em Hualien, que é a sede da fundação, há um mega-hospital e uma universidade (com ênfase nas áreas da saúde e da educação). Mas eles atuam muito em "disaster relief", atendendo a vítimas de furacões (aqui chamados de tuf
es), terremotos, tsunamis e outros desastres naturais. A sede da fundação, um edifício magnífico, é também um templo budista. É preciso tirar os sapatos para entrar lá (a gente os coloca num saquinho e carrega com a gente). Apesar de sábado, recebi um tratamento VIP, porque o pessoal da Microsoft Taiwan havia acertado para que eles me recebessem. É interessante o quanto se pode fazer para melhorar a qualidade de vida das pessoas, especialmente das mais pobres, através a iniciativa privada — inicialmente de um indivíduo (que hoje coordena um exército de pessoas, quase todas voluntárias, pagando suas passagens para ir ao local de desastres naturais com dinheiro do próprio bolso).

O Budismo, segundo me disseram, trabalha com o princípio de que todo mundo tem um potencial em princípio ilimitado, que é preciso desenvolver. Donde o trabalho com a educação. O trabalho com a saúde (hospitais) e com o atendimento de vítimas de desastres naturais é urgente, porque quem morre não tem como ser educado (ou, mesmo que já fosse, deixa de fazer uso da educação que teve). Curioso que essa idéia de potencial ilimitado é trabalhada pelas Nações Unidas, especialmente através do seu programa de Desenvolvimento Humano (UNDP/PNUD), idéia essa que foi apropriada pelo Instituto Ayrton Senna. A Microsoft (WorldWide) também tem um programa chamado Unlimited Potential, voltado para ajudar ONGs.

Volto a insistir: a filantropia privada (aí incluída a de fundo religioso) é um caminho muito mais efetivo para alivar os problemas das pessoas e ajudá-las a melhorar a condição de sua vida do que os programas sociais de nosso governo, eivados de todo tipo de corrupção no nível central, local e nos intermediários.

Um hurra ao Budismo da Mestre Cheng Yen — que vive num mosteiro aqui perto, na maior simplicidade, com a cabeça raspada, junto de outras monjas.  

Em Hualien, TW, 25 de Agosto de 2007

Longa viagem e complicados fusos horários

Só para dar uma idéia da "distância temporal" entre Campinas e Taipei, vou levar, tudo dando certo, quarenta e cinco horas desde que saí de minha casa, em Campinas, até que cheguei ao meu hotel (The Tango Hotel) em Taipei. Quase dois dias completos. Eis a discriminação dos tempos, levemente arredondados, citando o horário do Brasil como referência constante:

Saída de casa: 14h00 de 22/8

Saída de São Paulo: 20h30 de 22/8 – 6 horas e 30 minutos para ir de casa até a estação da Caprioli em Campinas, para ir de ônibus de Campinas a Guarulhos, e respectivas esperas (pede-se para chegar três horas antes do vôo em Guarulhos, e, dadas as intermináveis filas para entrar na área internacional, para checar as bagagens de mão, e para passar pela Polícia Federal, três horas é um prazo bastante razoável. Fiquei apenas cerca de uma hora na sala VIP da United antes de ir para o portão de embarque).

Chegada em Chicago: 7h de 23/8 (5h, hora local) – 10 horas e 30 minutos de vôo

Saída de Chicago para San Francisco: 10h de 23/8 (8h, hora local) – 3 horas de imigração, alfândega e espera

Chegada em San Francisco: 14h30 de 23/8 (10h30, hora local) – 4 horas e 30 minutos de vôo

Saída de San Francisco: 15h30 (11h30, hora local) – 1 hora de espera

Chegada em Tokyo: 2h de 24/8 (14h, hora local) – 10 horas e 30 minutos de vôo

Saída de Tokyo: 6h de 24/8 (18h, hora local) – 4 horas de espera

Chegada em Taipei: 9h de 24/8 (20 h, hora local) – 3 horas de vôo

Chegada no Hotel: 11h de 24/8 (22 h, hora local) – 2 de imigração, alfândega, traslado para o hotel 

Ou seja: saí de casa às 14h do dia 22/8, hora do Brasil, e vou chegar ao hotel em Taipei às 11h do dia 24/8, também hora do Brasil. Total: 45 horas (sendo 28 horas e 30 minutos de vôo, propriamente dito, e 16 horas e 30 minutos de traslado, imigração, alfândega e simples espera e estação rodoviária (Campinas) e aeroportos (São Paulo, Chicago, San Francisco, Tóquio e Taipei). As 11h de 24/8 do Brasil serão 22h do mesmo dia em Taipei, que está 11 horas na frente do Brasil (Tóquio estando 12).

Divertido? Eu acho. Só não acho tanto quando vôos atrasam ou alguma outra coisa não sai como havia sido prevista.

Na volta há uma redução de cerca de duas a três horas, nos vôos da Ásia para os Estados Unidos, em decorrência de ventos favoráveis e do movimento favorável de rotação da Terra. Para voltar, portanto, o tempo de vôo, propriamente dito, fica em torno de 26 horas. O tempo no chão é mais ou menos o mesmo.

Fusos Horários (As cidades americanas, Washington, Chicago e San Francisco, em Horário de Verão [Daylight Savings Time / DST], as demais, não):

São Paulo: Quatro horas na frente de San Francisco, duas horas na frente de Chicago, uma hora na frente de Washington, onze horas atrás de Taipei, doze horas atrás de Tóquio

Washington: Três horas na frente de San Francisco, uma hora na frente de Chicago, uma hora atrás de São Paulo, doze horas atrás de Taipei, treze horas atrás de Tóquio

Chicago: Duas horas na frente de San Francisco, uma hora atrás de Washington, duas horas atrás de São Paulo, treze horas atrás de Taipei, quatorze horas atrás de Tóquio

San Francisco: Duas horas atrás de Chicago, três horas atrás de Washington, quatro horas atrás de São Paulo, quinze horas atrás de Taipei, dezesseis horas atrás de Tóquio

Tóquio: Dezesseis horas na frente de San Francisco, quatorze horas na frente de Chicago, treze horas na frente de Washington, doze horas na frente de São Paulo, uma hora na frente de Taipei

Taipei: Quinze horas na frente de San Francisco, treze horas na frente de Chicago, doze horas na frente de Washington, onze horas na frente de São Paulo, uma hora atrás de Tóquio.

Complicado? Eeu acho — mas acho também divertido.

Acima do Pacífico, a 60 minutos de Tóquio, em 24 de Agosto de 2007 (agora já dia 24 também no Brasil)

Getúlio Vargas

Mais um 24 de Agosto, mais um aniversário do suicídio de Getúlio Vargas. Faz, este ano, cinqüenta e três anos que ele se matou.

Tenho, em casa, uma cópia dos diários mantidos pelo mais famoso dos presidentes brasileiros — que governou dando um golpe (em 1930) e, depois, dando golpes dentro do golpe (em 1934 e em 1937) e, depois disso tudo, ainda foi eleito pelo voto popular em 1950 (fato que diz coisas importantes sobre Getúlio e sobre o voto popular…). Em 2002 e 2006 elegemos, pelo voto direto, um presidente que  tem notórias e sabidas simpatias pelo maior Ditador das Américas em todos os tempos — El Comandante, que, se o Diabo não o levar antes, fará, dentro de um ano e meio, cinqüenta anos sanguinários no poder — e que sabidamente é amigo pessoal e aliado político de um Aprendiz de Ditador que, infelizmente, tem um sobrenome parecido com o meu…  

Mas voltemos ao Getúlio, ditador com o qual Lulla gosta, de vez em quando, de se comparar. Os diários de Getúlio são longos: a versão impressa tem dois grossos volumes, passando, creio, das mil páginas.

Deixando a vida pública de lado e concentrando um pouco a atenção na pessoa de Getúlio, ele (como Dom Pedro I e, agora sei, Dom Pedro II) também era conhecido por suas escapadelas sexuais (que ele anotava, de forma meio cifrada, nos diários). Dizem que teve um caso longo, se não me engano com a Virginia Lane, na época vedette famosa.

Fico aqui imaginando, com meus botões, e pensando em Dom Pedro I (um verdadeiro galinha, sem a menor compostura), Dom Pedro II, Getúlio, Juscelino, Collor, Itamar, FHC, Lulla — ou, lá fora, Roosevelt, Kennedy, Clinton, para não mencionar Mitterrand: será que houve Presidente da República que foi fiel à sua mulher?

Fico pensando… O Dutra deve ter sido. O Castelo Branco, também. E o Geisel, luterano, também. Será que só os generais sisudos terão sido fiéis às suas mulheres? O Sarney? Será? Dona Marly não me parece inspirar grandes paixões, estando mais para a Imperatriz Teresa Cristina do que para a Duquesa de Carral.

Faz diferença, no plano público e político? Tendo a crer que não, embora me pareça evidente que um cara que não hesita em enganar a mulher não terá escrúpulo nenhum em enganar a população de seu país…

Mas parece que, diferentemente das mulheres dos homens famosos, que protestam ou às vezes sofrem em silêncio, o brasileiro gosta de ser enganado pelos seus presidentes — e até os (re-)elege pelo voto popular, apesar das escapadas sexuais e das mentiras patentes que tentam nos impingir em outras áreas, menos pessoais e mais públicas.

Acima do Pacífico, em 24 de Agosto de 2007      

Dom Pedro II

O Axel de Ferran, colega de listas de discussão na Internet, está me convencendo a me interessar por personagens da história do Brasil Império: especialmente o Visconde de Mauá e Dom Pedro II.

Na livraria La Selva do Aeroporto de Cumbica ontem (ante-ontem, se contarmos o fato de que, pelos fusos horários e pela Linha Internacional do Tempo já estou no dia 24) procurei a biografia do Visconde de Mauá que o Axel me recomendou, de Jorge Caldeira. Não tinham. Mas encontrei uma biografia recente (o livro foi impresso no mês passado, Julho de 2007) de Dom Pedro II. Li uns pedaços na livraria e resolvi comprar. Não terminei de ler ainda, mas já li o suficiente para achar muito interessante.

O Axel parece achar que Dom Pedro II sofria de inveja crônica do Visconde de Mauá. Pode ser. Mas o nosso último imperador foi uma pessoa impressionante, sob todos os aspectos. Inteligente, culto, sensato, justo, cordato, sem apego ao poder, mas disposto a cumprir seu dever imperial com toda a majestade.

Na minha imaginação formada pelos cursos de história do Ensino Básico, pois nunca havia lido nada sobre Dom Pedro II, o imperador, que governou durante cinqüenta anos, era uma figura austera e imponente, marido e pai devotado, respectivamente, da Imperatiz Teresa Cristina e das princesas Leopoldina (em homenagem à avó — a mulher de Dom Pedro I) e Isabel. No livro descobri que ele achava a imperatiz bastante chata, sem conversa, e que teve vários casos de amor, alguns tórridos, o mais longo e importante deles sendo com a Condessa de Carral. Podemos dizer que a Condessa de Carral foi o grande amor da vida de Dom Pedro II, a pessoa com quem ele mais gostava de conversar e trocar idéias, mesmo que por cartas, e que, portanto, além de amante, era amiga. A Imperatriz, naturalmente, a detestava mas, noblesse oblige, trocou várias cartas muita civilizadas com ela. Mas as filhas de Dom Pedro II, especialmente a Princesa Isabel, gostavam muito da Condessa. Segundo o autor da biografia (José Murilo de Carvalho, professor da História da UFRJ, que, apesar de acadêmico, consegue escrever num estilo deliciosamente legível), Isabel amava mais a Condessa (que foi sua preceptora) do que a própria mãe. A Condessa, assim, roubou da Imperatriz não só o marido, mas também as filhas.

Curiosas essas coisas.

Essa história me fez lembrar da biografia de outro famoso que li recentemente: Franklin Roosevelt. O quatro-vezes Presidente dos Estados Unidos se casou cedo com sua prima Eleanor Roosevelt (que já tinha o sobrenome Roosevelt antes de se casar). Segundo o biógrafo, foi na igreja, no dia do casamento, que ambos trocaram o primeiro beijo, virgens da silva. Mas Eleanor, segundo todos os relatos, embora inteligente, era uma chata — e não demorou para Roosevelt achar o amor de sua vida, Lucy Mercer (ao qual, entretanto, diferente de Pedro de Alcântara, teve de renunciar, porque a manutenção do romance teria arruinado sua carreira política nos Estados Unidos conservadores dos anos 20). Renunciou, na verdade, não ao amor, mas ao caso. Amar, continuou amando a Lucy Mercer até o final da vida. Ela passou os últimos anos ao lado dele, quando ele já estava velho, paralítico e doente e era a única pessoa que estava ao seu lado quando ele morreu.

Tristes esses amores impossíveis.

Mas o que me chamou a atenção neste caso também foi o fato de que os filhos de Roosevelt sabiam do caso, compreendiam o amor do pai (dada a natureza meio desamante da mãe), e se relacionavam bem com Lucy Mercer — da qual se tornaram bons amigos. E Eleanor Roosevelt, ela própria, embora não nobre, foi capaz de gestos de grande elegância em relação à rival. Diz a biografia que Lucy Mercer havia pedido a um amigo seu que fizesse um quadro de Roosevelt, que estava entre os pertences dele quando ele morreu. Sabedora da história, Eleanor, a mulher, mandou empacotar o quadro e o enviou à rival, com uma carta dizendo (entre outras coisas): "Estou certa de que você gostaria de guardar isso". Mais do que civilidade, nobreza.

Voltando à biografia de Dom Pedro II, José Murilo de Carvalho relata que durante sua longa viagem aos Estados Unidos, país que fascinava o Imperador, a imprensa americana ficou impressionada não tanto por sua majestade imperial, mas por Pedro de Alcântara, cidadão brasileiro, que dispensou as frescuras do protocolo, andava sozinho, sem seguranças e comitivas, pagava passagem em barcos, trens e peças de teatro, conversava com plebeus e lhes dava a maior atenção… Foi chamado na imprensa de "O Imperador Ianque". Um jornalista até brincou com as palavras, dizendo que Dom Pedro II nos Estados Unidos era um imperador que se considerava um homem comum numa terra em que o homem comum se sente um imperador… Bello jogo de palavras.

Vale a pena ler a biografia de Dom Pedro II. Recomendo. Quando confrontado com a inevitabilidade da República, Dom Pedro II renunciou sem causar problemas, abriu mão da pensão vitalicia que o novo governo havia lhe oferecido, e foi para a Europa em exílio, onde, longe da terra que amava e do país ao qual dedicou sua vida (foi aclamado Imperador aos cinco anos e assumiu o cargo de fato aos quatorze), morreu pouco tempo depois, três dias depois de completar sessenta e seis anos.

Fico imaginando se o Brasil teria tido melhor sorte se a Princesa Isabel tivesse sucedido ao pai, e, depois, tivesse sido sucedida por seu filho, e assim por diante, do que tivemos nas mãos de tantos marechais e generais presidentes — (Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca, Eurico Gaspar Dutra, Humberto de Alencar Castello Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Baptista Figueiredo…) Getúlio não era Marechal nem General mas foi ditador, e bem violento… Jãnio foi eleito democraticamente mas, segundo alguns, também queria ser ditador… Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lulla (este amigo de um mega-ditador e de um aprendiz do ofício)… Será que valeu realmente a pena despachar Dom Pedro II para o exílio e criar a República?

E, voltando à alegação do Axel de Ferran, de que Dom Pedro tinha inveja do Visconde de Mauá, pergunto-me: será? E, se tinha, tinha razão de ter? Está certo que Mauá foi mais mais homem de ação do que ele. Mas a figura de Dom Pedro II, como homem público, não parece que fique a dever nada ao Visconde de Mauá na política e, certamente, na cultura e na nobreza dos princípios e sentimentos.

(Em tempo: Dom Pedro II era primo de Franz Joseph (Francisco José), o último imperador do Império Austro-Húngaro, marido de Elizabeth / Sissi, assassinada ao lado do Lac Leman, em Genebra, por um anarquista italiano. Em outras palavras: nosso Imperador maior foi primo, por casamento, da mais famosa imperatriz da Áustria e da Hungria!!! E também era primo, naturalmente, do Imperador Maximilliam (Maximiliano), do México, que era irmão mais novo de Franz Joseph).

Acima do Pacífico, em 24 de Agosto de 2007

Arremetidas

O último acidente da TAM — infelizmente eles têm se tornado tão frequentes que a gente precisa se referir a eles qualificando-os — trouxe à baila a discussão de alguns termos da aviação que poucos de nós conhecíamos: primeiro foi “grooving“, depois reverso, manete, “idle“, etc. Entre os termos discutidos estava o verbo arremeter. Houve um momento, logo depois do acidente, em que se acreditou que os pilotos do avião que explodiu tentaram arremeter — isto é, inverter o processo de aterrisagem e levantar voo novamente. Isso pode se dar antes ou depois de o avião tocar o solo e, pelo que diziam os especialistas em aviação, é tão frequente que um pouso nada mais é do que uma arremetida que não aconteceu… Ou seja, pousar é como se fosse fracassar no arremeter…

Que seja. Mas quando acontece, assusta!

Aconteceu comigo hoje (ou ontem — dia 23/8/2007). Quando você voa e passa a “International Date Line”, fica complicado saber que dia é. Esqueci de dizer que estou escrevendo em voo, o voo UA 837, da United, de San Francisco para Tóquio (Narita). Saí do Brasil ontem (dia 22/8/2007), no vôo UA 842, da mesma United, para San Francisco, via Chicago (O’Hare). Chegamos a Chicago na hora, sem problemas e saímos de Chicago para San Francisco também sem problemas. Quando estávamos aterrisando em San Francisco — já estávamos baixinhos, baixinhos, quase esperando o toque das rodas do avião na pista — passa um outro avião na nossa frente (eu estava olhando a linda paisagem da baía de San Francisco e o vi sem acreditar no que estava vendo), assim como um carro passa na nossa frente num cruzamento em T. Carros só andam no nível do chão, mas aviões podem andar mais alto ou mais baixo. Esse, que passou na nossa frente estava no mesmo nível que o nosso, só que estava levantando vôo. É claro que levei aquele susto, mas o que me assustou ainda mais foi que nosso piloto também parece ter se assustado porque… é issso mesmo: arremeteu!!!

Todo mundo dentro do avião olhou para o companheiro do lado e disse (ainda que não verbalizado): “Epa!”. Como já voávamos muito baixo e o nosso avião estava como que planando, o processo foi fácil de sentir: o bico do avião levantou, como num “take-off“, e os motores foram acelerados, como acontece quando a gente subitamente passa a marcha do carrro de quinta para quarta e depois para terceira para fazer uma ultrapassagem crucial numa subida. A gente sentiu a inversão da direção (de para baixo para para cima) no próprio corpo e ouviu a aceleração das turbinas — e, pela janelinha, viu a bela paisagem da baía ir ficando lá embaixo e as primeiras nuvens aparecer… Foi um negócio rápido. Em poucos segundos estávamos novamente acima das núvens, vendo, não mais a baía, mas as montanhas.

Depois de já estarmos bem no alto novamente, o comandante deu um aviso curto, que não dizia mais do que o necessário — e o óbvio (pelo menos para quem viu o outro avião passar na nossa frente): “Como vocês devem ter percebido, tivemos de interromper momentaneamente o procedimento de descida por causa de tráfego aéreo. Devemos aterrisar dentro de cerca de dez minutos”. Aterrisamos, desta vez sem susto. Ao sentir o avião tocar na pista de levinho, senti vontade de bater palmas — e me surpreendi quando o homem no assento ao lado, que não havia aberto a boca durante as quatro horas e quinze minutos de voo, disse: “Dá até vontade de bater palmas, não dá?” (“it feels like clapping, doesn’t it?”)

Para mim, a observação do colega de voo é prova insofismável de que a natureza humana de fato existe. Temos reações muito semelhantes diante das coisas. É isso que faz a literatura, o teatro, o cinema possível. O autor do livro ou o diretor da peça ou do filme sabem quando vamos rir, quando vamos ficar penalizados, quando vamos chorar… O autor de um quadro ou de uma escultura sabe quando vamos achar a obra linda ou quando vamos ficar chocados diante dela. (Não vou à Bienal, como regra, para não ficar chocado diante de boa parte do que lá se exibe).

Mas voltemos ao nosso vôo UA 842. Com os quase 15 minutos adicionais, requeridos para o nosso arremetimento (é esse o substantivo?) e novo procedimento de descida, tive apenas meia hora para trocar de avião em San Francisco — com mudança de terminal e tudo. Tive de andar rápido, por uns 500 m, pegar um ônibus na pista, e ser levado para o outro terminal, novo, o Terminal Internacional. Chegamos ao portão de embarque, os que estávamos fazendo a conexão, poucos minutos antes de fecharem as portas do avião. Por pouco. Entrei no avião, meio esbaforido. O esforço para não perder a conexão, porém, me fez me esquecer um pouco do susto do arremetimento. Recebi uma taça de champanhe gelado da aeromoça e me recompus.

Por falar em aeromoça, na parte do vôo UA 842 entre São Paulo e Chicago sentei-me ao lado de duas pessoas interessantes (apesar de ser uma fileira de apenas dois assentos e eu ocupar um…). Explico. Raramente converso muito com meus companheiros de voo: prefiro ler, assistir aos filmes, ou simplesmente dormir. Mas neste caso, conversei bastante. Quando já estava achando que o assento do lado iria ficar vazio, apareceu seu ocupante, o lado masculino de um casal cuja mulher teve de se assentar na fileira de trás, na janelinha. Antes mesmo de levantarmos voo o cidadão já havia conseguido que o rapaz que estava ao lado da mulher dele trocasse de assento com ele — e foi assim que ganhei meu primeiro real companheiro de assento no voo, um rapaz de mais ou menos trinta e cinco / quarenta anos, cordial, sorridente. Cumprimentamo-nos e começamos a conversar as frivolidades de costume, em Inglês. Perguntei a ele se era americano (só ousei perguntar porque ele me pareceu extremamente jovial — normalmente nunca faço uma pergunta direta dessas a alguém que presumo ser americano), e ele me disse que não: havia nascido no Brasil, de pais americanos, missionários, tinha cidadania brasileira, mas também passaporte americano. Disse-lhe que então podíamos falar em Português, mesmo, e foi isso que fizemos dali para a frente. Ele me disse seu nome: James David Meadows — explicando que já foi chamado de tudo: Jeimes, James, Deivid, Daví, e até mesmo Meadows. Eu disse o meu nome — e comentei que meu pai havia sido pastor por cerca de cinquenta anos. Isso nos deu uma certa cumplicidade, imagino, porque a conversa decolou a partir dali.

Ele me explicou que, assim que jantássemos, iria trocar de lugar com a mulher, funcionária da United (área de vendas, grande clientes, em São Paulo), que estava na Classe Econômica, com o filho de dois anos e meio, por causa de uma política da companhia. Havendo lugar, os funcionários viajam em Executiva ou até mesmo em Primeira, mas não podem fazê-lo com crianças pequenas… Pelo que me explicou, deve ser porque crianças pequenas podem incomodar os outros passageiros, e se eles descobrirem que a criança pequena está ali voando de graça, porque é filha de funcionários, podem se indispor com a empresa… (Cuidados com a imagem. É bom que isso aconteça. As companhias brasileiras podiam aprender alguma coisa com essas regras pouco conhecidas do público em geral). Mas, enfim. A mulher dele estava ocupando o lugar dele, na Econômica, ao lado do menino, e, como estava grávida (para Novembro), iria trocar de lugar com ele, depois do jantar, para que pudesse dormir um pouco de forma mais confortável na Executiva.

O jantar demorou um pouco, foi precedido de drinks e canapés (ele, notei, só bebeu suco de maçã, como bom crente e filho de missionário). Conversamos bastante sobre o Brasil, os Estados Unidos, o Lulla, o Bush… Sintonizamo-nos bem, politicamente. Ele é um ser meio hermafrodita, mais ainda do que eu, sendo capaz de genuinamente sentir como brasileiro e como americano. Ele tem os pais americanos, eu tenho a filha e as netas, ambos nascemos no Brasil mas moramos também lá e estamos constantemente lá, ambos nos mantemos informado sobre os eventos dos dois países, ambos temos enorme simpatia para com o país, etc.

Depois do jantar, dormi logo e, assim, não vi a “troca da guarda”. Acordei durante a noite e vi que a companhia do assento ao lado havia mudado. Durante os noventa minutos finais do voo, quando reacendem as luzes e servem café da manhã, conversei bastante com a simpática mulher dele, Juciária Tavares Meadows. Perguntei sobre o Nicholas (nome do menino), se ele dormia bem no avião e ela me disse que sim — só ficou frustado porque não havia arrumado assento numa janelinha… Mas disse-me que se alguém chamá-lo para uma janelinha, ele vai sem pestanejar. Fiquei sabendo que o novo nenê é uma menina, mas não me lembro de ela ter me dito se já haviam escolhido o nome da menina. Conversamos um bocado sobre a United. Ela começou a trabalhar na companhia quando esta chegou ao Brasil, em 1992, na sequência do fechamento da PanAm: a United comprou suas rotas para a América Latina e para a Ásia. Eu comecei a voar sistematicamente pela United na mesma época, porque era “Frequent Flyer” da PanAm e herdei o status de Premier Executive.

Gostei muito do Davi e da Juciária — que moram em Guarulhos (ele tem uma companhia que aluga máquinas de refrigerantes e é ativo na Igreja de Cristo / Church of Christ).

Enfim, esta foi a única vez que tive dois companheiros de assento num mesmo voo e uma das raras vezes que conversei bastante com os companheiros de assento. (Uma outra vez que conversei bastante foi quando tive a sorte de sentar-me ao lado do Vice-Presidente Industrial da General Motors do Brasil, José Eugênio Pinheiro, num vôo, também da United, de Chicago a São Paulo.

Mas introduzi esse assunto, lá atrás, dizendo “por falar em aeromoça…” e acabei não falando delas. Quando conversávamos, vivamente, o Davi e eu, enquanto a aeromoça explicava os procedimentos a seguir no caso de acidentes, levamos um olhar feio da que estava ao nosso lado — provavelmente porque não estávamos prestando atenção (algum viajante que não esteja em sua primeira viagem de avião presta?). Comentei com ele que a aeromoça havia ficado brava e, com isso, iniciamos uma conversa interessante sobre aeromoças — que, no caso da United, são invariavelmente “aerovelhas”, como ele bem observou… Velhas e, infelizmente, muito feias. Provavelmente por causa da cultura e da legislação americana, que pune severamente uma empresa que deixar de contratar alguém por causa da aparência (“lookismo” – aparencismo). O exigência de que seja “moça jovem e de boa aparência” é estritamente verboten nos Estados Unidos como requisito para emprego. Comentamos como as aeromoças brasileiras são em geral jovens e bonitas — e como as asiáticas em geral são lindas, nos aviões das companhias asiáticas e mesmo nos vôos da United para a Ásia em que, fatalmente, há várias aeromoças (moças, mesmo) asiáticas. Mas a companhia e o aeroporto em que essa característica mais me chamou a atenção foi a Thai Air e o aeroporto de Bangkok (especialmente na sala VIP da Thai Air). Os aviões da Thai Air parecem ter participantes em um concurso de beleza como comissárias de bordo (vou ser politicamente correto aqui e deixar de falar de aeromoças e aerovelhas). A Sala VIP da Thai Air (Star Alliance) no aeroporto de Bangkok, além de ser a maior que eu já vi em toda a minha vida, é a que tem as mais lindas e gentis atendentes de todas as salas VIP em que já tive a oportunidade de ficar. No caso de companhias brasileiras, ou mesmo do pessoal de aeroporto da United, as moças são bonitas, mas não são de parar o tráfego, como as asiáticas da Thai Air.

Conversa de avião de vez em quando rende, como se vê. Comecei falando de um susto e agora estou aqui comendo uns chocolatinhos Ghiraldelli (marca de San Francisco) que a comissária de bordo gentilmente me trouxe, com um copo de água gelada. Minha colega de assento neste vôo é asiática e, pelo que dá pra notar, totalmente muda — não fala nem sequer uma palavra, nem mesmo com as comissárias de bordo. Agora dorme tranquila. Apesar de ter viajado bastante pela Ásia, várias vezes, não consigo distinguir direito chinesa de japonesa — e às vezes nem de coreana e tailandesa. Digo isso para mostrar que, afinal de contas, nem presto tanta atenção assim nelas. Se o fizesse, saberia distinguir a nacionalidade delas — algo que os nativos fazem com incrível facilidade.

A seleção de músicas clássicas nos voos da United está cada vez melhor. E a seleção de filmes, também. Na parte do voo entre Chicago e San Francisco assisti a “Fractured” (não sei o título em Português), com Anthony Hopkins. Gostei muito — especialmente porque era Anthony Hopkins, para mim o maior ator da atualidade.

(A propósito, na terça-feira estive em Campos do Jordão e ouvi o Ricardo Semler dizer que a única vez que ficou sem saber o que dizer foi um dia, num avião, em que o Anthony Hopkins se sentou ao lado dele no avião. O Anthony Hopkins é um tal monstro sagrado, e sua presença tão assustadoramente “imposing“, que até o Ricardo Semler admite que não teve coragem de lhe dirigir a palavra durante um voo de mais de quatro horas… Choses de la vie. Interessante.)

Dentro de mais ou menos três horas devemos aterrisar em Narita — sem arremetidas e sem outros sustos, espero. Já foi caso de avião mais do que suficiente para crônica de blog (em que felizmente não há limite para o tamanho).

Acima do Pacífico em 24 de Agosto de 2007 (hora de Tóquio — no Brasil é 21h52 do dia 23 ainda). 

O poder das maiorias

"O endeusamento do poder das maiorias e o uso do sufráfio universal como justificação para qualquer ato, por mais arbitrário que seja, foram as formas encontradas pelos modernos marxistas para impor e justificar as suas idéias despóticas sem resistência".

Esse texto aparece na VEJA de 22 de agosto de 2007 e é atribuído a João Luiz Mauad, administrador de empresas. Ele revela muita perspicácia.

Os pais do liberalismo perceberam que a democracia é um sistema político que pode resultar no despotismo — a menos que seja acompanhado de freios à vontade da maioria. E o maior freio é algo como a "Carta de Direitos" (Bill of Rights) da Constituição Americana, que proíbe o Congresso — os Founding Fathers nunca imaginaram que teriam de proibir o Presidente de legislar por "medidas provisórias" — de legislar sobre uma série de matérias, garantindo, assim, a inviolabilidade dos direitos individuais.

Aqui no Brasil temos uma Constituição que aparentemente garante os direitos individuais. O problema é que a Constituição também contém uma lista enorme de pseudos direitos sociais e econômicos que só podem ser respeitados com violação da liberdade e do direito à propriedade dos cidadãos que pagam impostos. Mesmo no caso do direito individual à propriedade, ele só é garantido na Constituição se a propriedade cumprir seu fim social — seja lá o que for que isso queira dizer.

A Constituição brasileira abre, assim, as portas ao despotismo. Se minha propriedade não estiver cumprindo seu fim social no entendimento de algum burocrata de plantão, ela pode ser confiscada. Se eu tenho mais dinheiro do que algum burocrata de plantão julga justo, ele pode confiscar o meu dinheiro, violando meu direito à minha propriedade, para atender a um pseudo-direito social de alguém viver às minhas custas.

Mais lamentável de tudo é lembrar do velho Ulysses Guimarães chamando a constituição de "constituição cidadã"… Que o mar o tenha.

Em Campinas, 20 de agosto de 2007   

Quarenta anos

Hoje, 19 de agosto de 2007, faz quarenta anos que fui para os Estados Unidos pela primeira vez. Fui estudar — e fui para Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, cidade que até hoje considero como minha “cidade natal” nos Estados Unidos. (Torço até hoje pelos times de beisebol e futebol americano da cidade, os Pirates e os Steelers — este nome dado em honra ao fato de que Pittsburgh foi a “Capital do Aço” nos Estados Unidos, tendo sido a cidade nos arredores da qual Andrew Carneggie construiu seu império industrial de ferro e aço e viveu parte de sua vida no final do século XIX e início do século XX. Concluí recentemente a leitura de uma magnífica biografia dele, que foi o homem mais rico do mundo na passagem do século XIX para o século XX — como Bill Gates foi um século depois — e acabou doando quase toda sua mega-fortuna — como Bill Gates também promete fazer.)  

Há cerca de um ano (no dia 8 de Setembro de 2006) escrevi um artigo aqui neste blog com o título: “Quarenta Anos Depois do Caos: 1966-2006”. O artigo foi dividido em três partes, porque era muito grande. Eis o URL delas:

http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1393.entry

http://ec.spaces.live.com/Blog/cns!511A711AD3EE09AA!1394.entry 

http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1395.entry

O artigo está também em meu site autobiográfico, sem a divisão em três partes:

http://www.autobio.info/textos/1966-1966.htm.  

Aqui continuo, de certa maneira, o que comecei lá.

Quarenta anos atrás o ano era 1967. Vivíamos numa Ditadura, mas ela não havia revelado ainda sua face mais feia.(Quando essa face mais feia apareceu, em 1968, eu já estava nos Estados Unidos.)  

No Terceiro Festival de Música Popular Brasileira, realizado no ano em que saí do Brasil, 1967, no Teatro Paramount, sob os auspícios da então todo-poderosa TV Record, as seguintes músicas foram premiadas (algumas delas bastante tocadas ate hoje):

1º lugar: “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam), com Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo

2º lugar: “Domingo no parque” (Gilberto Gil), com Gilberto Gil e Os Mutantes

3º lugar: “Roda-viva” (Chico Buarque), com Chico Buarque e MPB-4

4º lugar: “Alegria, alegria” (Caetano Veloso), com Caetano Veloso e Beat Boys

5º lugar: “Maria, carnaval e cinzas” (Luís Carlos Paraná), com Roberto Carlos e O Grupo

6º lugar: “Gabriela” (Maranhão), com o MPB-4.

Outras premiações:

Melhor letra: Sidney Miller (“A estrada e o violeiro”)

Melhor intérprete: Elis Regina (“O cantador”)

Melhor arranjo: Rogério Duprat (“Domingo no parque”)

[Dados retirados do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, disponível no site http://www.dicionariompb.com.br]

(Por coincidência, no Dia dos Pais deste ano, há uma semana, ganhei um DVD lindo com o MPB-4, chamado MPB-40, em que cantam, agora, com a participação especial do Chico Buarque e, em outra faixa, do Quarteto em Cy. Lindo, lindo.)  

Mas, voltando ao que importa, e como relatei em parte na matéria que acabei de referenciar, o Golpe de 31 de Março de 1964 veio a desencadear pequenos golpes dentro de várias instituições brasileiras. Na Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual eu então fazia parte (era aluno do Seminário Presbiteriano de Campinas), o golpe veio em Julho de 1966, na Reunião do Supremo Concílio em Fortaleza. Naquela reunião tomou o poder Boanerges Ribeiro, reverendo, que o Diabo o tenha, colega de turma de meu pai no mesmo seminário (formado em 1941). E não demorou nem um pouco para ele baixar o sarrafo naqueles que ele chamava de “modernistas” dentro da igreja (entre os quais ele me incluía).

No Seminário o sarrafo veio na forma de uma Comissão de Seminários, que começou a agir naquele mesmo mês de Julho, capitaneada (devo dizer coronelizada?) pelo Coronel Renato Guimarães, cupincha do Boanerges e presbítero da Igreja Presbiteriana da Vila Mariana (se bem me lembro). Com exceção dos Nefastos Quinze a que fiz referência no outro artigo, ninguém atendeu a convocação da Comissão — e fomos todos (menos os Quinze) defenestrados. 

Fora do Seminário, fui procurar trabalho — e o encontrei na Bosch, lá mesmo em Campinas (na verdade, quase na Boa Vista, bairro de Campinas em que minha mãe nasceu nos idos de 1924). Trabalhei ali durante cerca de oito meses, no Departamento de Controle Econômico da Fábrica (Werkswirtschaftskontrol — ou WWK). Minha área era de custo. Já havia trabalhado antes na Seção de Custo da Swift, em Utinga, em Santo André.

Enquanto trabalhava na Bosch procurei tramar meus pauzinhos para continuar estudando Teologia — algo em que estava ainda bastante interessado. A idéia era ir para a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, de longe o Seminário mais sério existente no Brasil naquela época (e, talvez, até hoje). Em resposta à minha consulta, informaram-me de que o fato de ter sido defenestrado do Seminário de Campinas não era desabonador — pelo contrário. Mas eu não teria bolsa: teria de pagar meus próprios estudos — e teria de entender e falar Alemão, pois a maioria das aulas era em Alemão (visto que os professores vinham da Alemanha para permanências de dois ou quatro anos).

Como estava estudando Alemão à noite, intensivamente, no Goethe Institut de Campinas, sob o notável Prof. Ernst Manuel Zink, e ainda estudava na Bosch, com o mesmo Prof. Zink, durante o dia (a Bosch dava três horas livres por semana para os funcionários que o desejassem aprendessem Alemão em cursos gratuitos oferecidos dentro da própria empresa), a língua não seria problema… Mas o dinheiro, sim!!!

Juntei todo o dinheiro que pude e, felizmente, consegui apoio financeiro da Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, na Alameda Jaú, em São Paulo, na qual era pastor o Rev. José Borges dos Santos Júnior, da oposição ao Boanerges, para a qual havia me transferido.

Em Fevereiro de 1967 pedi demissão da Bosch, juntei o dinheiro que havia poupado (quase tudo, pois havia passado a morar com meus tios, Alice e Anello Sanvido, na cidade), e me mandei para São Leopoldo. Lá fiquei durante um semestre — e aprendi muito.

Enquanto estudava lá, recebi uma carta do Prof. Gordon Eugene Jackson, Academic Dean do Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh — instituição fundada no século XVIII em Xenia, Ohio, e, depois, transplantada para Pittsburgh. Ele me oferecia uma bolsa para fazer concluir o Bacharelado em Teologia em Pittsburgh.

Dois problemas: primeiro, o Bacharelado em Teologia nos Estados Unidos é, como o curso de Direito e o de Medicina, um curso que exige, como pré-requisito, um diploma de curso superior (B.A. ou B.S.). Eu não havia concluído a Graduação no Brasil, embora já estivesse fazendo o Ensino Superior (teológico) durante quatro anos; segundo, em sua oferta não estava incluída a passagem para os Estados Unidos (de custo extremamente elevado naquela época).

O primeiro problema foi resolvido pelo próprio Prof. Jackson. ele pediu toda a minha documentação escolar e, com base nela, convenceu o Conselho Estadual da Educação do Estado da Pensilvânia de que eu tinha escolaridade suficiente para fazer o curso de Teologia no Seminário. Era um curso de três anos, e eu o fiz inteiro, de 1967 a 1970. Devo ao Prof. Jackson o empenho que foi muito além da “chamada do dever” (“the call of duty”). O empenho se deveu, em parte, ao fato de que ele me conhecia bem, pessoal e academicamente. Ele havia passado o primeiro semestre de 1966 no Brasil e eu havia sido seu fiel acompanhante e intérprete — já falava bem o Inglês então. (Depois que me formei em Pittsburgh, Dr. Jackson e sua mulher Phylisee se tornaram grandes amigos pessoais. Encontrei-os nos anos 90 na Florida, onde estava aposentado, depois de ter se recuperado de um câncer na garganta. Desde então, infelizmente, perdi contato.)

O segundo problema, a passagem aérea para os Estados Unidos, foi resolvido pelo Rev. Aharon Sapsezian, então Diretor Executivo da ASTE – Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos, em São Paulo. Ele me arrumou uma bolsa de viagem junto ao NCCCUSA – National Council of the Churches of Christ in the United States of America. Devo a ele essa ajuda. (Desde então o Aharon e sua mulher Zabel se tornaram meus diletos amigos, por quem tenho a maior afeição — eles moram em Genebra desde os anos setenta ou oitenta, tendo ele trabalhado no WCC – World Council of Churches [ou COE – Conseil Oecuménique des Églises, como ele é chamado na francófona Genebra] e ela na LWF – Lutheran World Federation.)

Resolvidos os problemas, obtido o visto de entrada nos Estados Unidos, minha viagem foi agendada para o dia 19 de Agosto de 1967.

No dia marcado, fui de Santo André para Campinas, de trem, pois o vôo da PanAm para New York saía de Viracopos (parando no Galeão). Minha mãe e meus irmãos me acompanharam até lá — meu pai, com quem eu estava de relações cortadas por causa dos problemas no Seminário de Campinas descritos nos artigos referenciados atrás, nem se despediu de mim.

Lembro-me perfeitamente bem da viagem, da parada no Galeão (ainda Base Aërea), da chegada em New York (Aeroporto JFK, enorme), da busca pela bagagem, da localização (em outro terminal) do vôo para Pittsburgh, da chegada na cidade onde eu viveria por mais de cinco anos.

Em Pittsburgh fui recebido por Mr. William Eichleay, sua mulher e sua filha, que, através do PCIV – Pittsburgh Council for International Visitors, haviam se oferecido para me hospedar durante uma semana, antes do início das aulas, a fim de que eu pudesse me “aclimatar” na cidade e ficar conhecendo seus principais pontos de interesse. Eles me apanharam no aeroporto e me levaram imediatamente para almoçar. Comi meu primeiro “sirloin steak” e tomei meus dois primeiros “martinis on the rocks” (três porções de gin para uma de vermouth branco seco, com gelo e uma azeitona). Achei tanto o steak como o martini deliciosos. Do restaurante fomos para a casa deles, onde pude descansar da viagem — e da excitação de estar pela primeira vez nos Estados Unidos.

Nos dias seguintes os Eichleays me mostraram a cidade, me levaram para comer hamburgers e outras guloseimas americanas, e, uma semana depois, me depositaram no dormitório do Seminário.

Ali começou minha vida de estudante estrangeiro — e um dos períodos mais desafiadores de minha vida. Na terça-feira depois do Labor Day (primeira segunda-feira de Setembro) as aulas começaram. Cerca de um mês depois, me casei (com minha namorada campineira, Maria Luiza, que havia ido para os Estados Unidos também na mesma época, através de uma bolsa da WMF – World Mennonite Federation).

No curso de Teologia do Seminário de Pittsburgh tive o privilégio de estudar sob Dietrich Ritschl, Markus Barth, e Hans Eberhard von Waldow (este havia sido professor de Velho Testamento em São Leopoldo, aqui no Brasil), todos suiços ou alemães. Naquela época a teologia séria era feita na Suiça e da Alemanha: Karl Barth e Emil Brunner, na Suiça, Rudolf Bultmann na Alemanha. Ao longo e ao final do curso ganhei quase todos os prêmios e honrarias que a instituição tinha a oferecer: Grego, História da Teologia, Teologia Sistemática. E ganhei também uma bolsa completa para fazer o Doutorado na University of Pittsburgh, concedida anualmente ao aluno com a melhor média em todos os departamentos do currículo do Seminário. 

(Devo ressaltar que, sendo o Bacharelado em Teologia um curso que exigia, como pré-requisito, um curso superior, o diploma de Bacharel em Teologia que recebi em 1970 foi, subseqüentemente, substituído por um diploma de Mestre em Teologia, por decisão da instituição, devidamente referendada pelas autoridades educacionais do Estado da Pensilvânia.)  

No Doutorado, cujas seminários eram realizados na incomparável Catedral da Aprendizagem (Cathedral of Learning), prédio majestoso de trinta e sete andares que serve como edifícil principal da universidade, tive o privilégio de estudar sob Wilfrid Sellars, Nicholas Rescher, Kurt Baier, Richard Gale e William W. Bartley, III (o discípulo amado de Karl Popper) que acabou sendo meu orientador. Bartley acabou me ajudando a arrumar emprego na California, onde passei dois anos e se tornou meu grande amigo até sua morte prematura em 1992.

Nos anos passados em Pittsburgh cheguei à conclusão de que não cria mais em nada que era essencial para a religião cristã e, assim, abandonei meu propósito original de ser pastor. (Muitos colegas meus deixaram de crer mas continuaram a ser pastores). Durante os anos em que trabalhei no meu Ph.D. na Pitt, concluí que a filosofia seria a minha área de atuação. Tenho sido fiel a ela desde então, apesar de incursões (depois de já de volta no Brasil) nas áreas da educação, da informática e da administração de sistemas de informação. 

Em Junho de 1974, já com uma filha, a Andrea, voltei para o Brasil, para assumir um cargo na UNICAMP, para o qual havia me habilitado, com a ajuda inestivável de meu primo Anello Sanvido Filho, na época aluno de Química na universidade, e que ficou sabendo que a UNICAMP precisava de um professor de filosofia com Doutorado completo.  

Dentro de seis meses de minha chegada ao Brasil me separei de minha primeira mulher (que voltou aos Estados Unidos com minha filha) e me casei (maneira de dizer – não havia divórcio ainda naquela época) com minha atual mulher, a Sueli. Faremos trinta e três anos de vida em comum daqui a dois meses, em Outubro. A Sueli veio com dois filhos, a Tatiana, enão com 5 anos, e o Rodrigo, então com 3, que se juntaram à Andrea, filha que havia tido com a Maria Luiza em 1973, e que estava, portanto, com um ano. Treze meses depois de estarmos juntos a Sueli e eu tivemos a Patrícia, completando o “time” de nossos quatro filhos, que acabaram bastante bem ordenados (de dois em dois anos) pelo ano de nascimento: 1969, 1971, 1973 e 1975. (Em um pouco mais de dois anos e meio, de Junho de 1973 a Novembro de 1975, o número de meus filhos quadruplicou: passou de um para quatro!)

Hoje faz quarenta anos que todo esse processo começou.

Quando voltei dos Estados Unidos, em Junho de 1974, sete anos depois, a Ditadura estava mais branda. O General Ernesto Geisel acabava de assumir como Presidente da República — e ele era membro da igreja cujo seminário me deu acolhida em São Leopoldo. Esse fato, em si, já me deixou mais confiante para voltar. Mas lembro-me de que, ao chegar à UNICAMP, fui advertido de que deveria tomar cuidado com o que dizia, especialmente em sala de aula, porque entre os alunos haveria “dedos-duros”.

Em 1981, quando fui demitido da UNICAMP, durante a gestão de Paulo Maluf no Governo do Estado, era Ministro da Educação (do General João Baptista Figueiredo) o General Rubem Carlos Ludwig. O fato de ele também ser luterano e de eu haver estudado no Seminário Luterano de São Leopoldo foi-me de grande valia naquele instante difícil. Os tempos eram ainda de Ditadura e de “Malufura”, e os economistas da UNICAMP começavam a colocar suas manguinhas de fora. Botaram de fora todas as mangas a que tinham direito — e outras a que não tinham. Nós todos sabemos onde estão hoje. Mas essa é outra história.

Em Salto, 19 de Agosto de 2007

A esquerdopatia brasileira

A patologia esquerdista alcança proporções epidêmicas no cenário intelectual (?) brasileiro.

A principal evidência de que um indivíduo está afligido por essa patologia é sua defesa das seguintes teses (que, em geral, vêm sempre juntas):

a) O maior problema brasileiro é a desigualdade econômica (entre indivíduos, grupos, regiões geográficas);

b) Essa desigualdade pode ser eliminada, ou pelo menos drasticamente reduzida, pela ação governamental (mediante "políticas públicas");

c) A ação governamental em prol da redução das desigualdades é a forma pela qual o governo promove a liberdade ("positiva") e a justiça ("social");

d) Os níveis absurdos de confisco da renda nacional mediante impostos e taxas praticados no Brasil se justificam em decorrência das três teses anteriores.

Todas essas teses são comprovadamente falsas — e já foram devidamente refutadas por evidência e argumento.

A patologia atinge dimensão crítica quando, na tentativa de transformar essas teses em ação, os esquerdopatas atingem um nível tal de debilidade mental que passam a acreditar, adicionalmente, que:

a) O governo Lulla é um governo bem intencionado, cujo maior objetivo é promover a justiça social (ou seja, a igualdade econômica);

b) Além de bem-intencionado, o governo Lulla é competente e realizador, na área social e em outras (estando certo ele em jactar-se, com freqüência, de que "nunca antes neste país…" — seguido de alguma pretensão positiva);

c) Há uma conspiração da "elite branca de direita", bem sintonizada com os meios de comunicação (cujos proprietários seriam todos para da referida elite), para desmoralizar o governo Lulla divulgando acusações de corrupção e incompetência administrativa que seriam totalmente falsas, fruto de montagens, denúncias incomprovadas, etc.;

d) Mesmo diante de fatos inegáveis, como a corrupção revelada no caso do mensalão e a incompetência administrativa revelada no caso do caos aéreo, insistem que os fatos não são fatos e que as evidências trazidas à tona foram forjadas pelos membros da  conspiração da "elite branca de direita".  

Será que tem cura essa patologia?

Em Campinas, 7 de agosto de 2007

Sebastião Francisco da Silva

Faleceu no domingo passado, dia 29 de Julho, o Sr. Francisco, pai do Geovaldo, caseiro do meu sítio. O Sr. Francisco também morava no sítio, numa casinha adicional, ao lado da casa do caseiro. Tinha as coisinhas simples dele, um aparelho de televisão, um rolinho de fumo e umas palhas. Esses eram seus pertences.

Consta que o dono do sítio anterior em que o Geovaldo havia sido caseiro havia proibido o Sr. Francisco de morar no sítio. Estupidez. A figura do velhinho simpático (consta que tinha 76 anos ao morrer), sentado quietinho na frente de sua casinha, fumando um cigarrinho de palha, era, além de agradável, do ponto de vista humano, uma obra de arte. Apesar de o Sr. Francisco não ser propriamente negro, sua figura, ali, fazia-me lembrar de um quadro que meu tio, Mauro Chaves, pintou um dia, de um preto velho, de cabelos brancos, fumando um cigarro de palha. 

A gente sempre parava para conversar com ele. Perguntava se estava bem, e ele respondia algo como "Tudo bem… Se o patrão está contente com o serviço da gente aqui, estamos bem".

Agora o Sr. Francisco se foi. Perdeu seu filho o pai exemplar, perderam seus netos o avô carinhoso, perdemos todos nós. Ontem à noite foi a Missa de Sétimo Dia dele. Desde que começou a se sentir mal até a hora da morte não passaram dez dias.

Em Campinas, 5 de agosto de 2007